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"Só com um grande amigo a
gente pode ficar em silêncio."
É Marcos, o mais
resistente a mudanças, devoto dos Sex Pistols,
finalmente baixando a guarda perante Ney, amigo que não
vê há anos, desde que este ficou cego em um acidente e
se tornou cantor pop romântico à la Wando.
Marcos e Ney têm 30 e poucos anos. Nesse reencontro, em
meio à bagunça da sala do apartamento do primeiro (seu
bebê dorme em um canto), resgatam afinidades de duas
décadas atrás, quando atores movidos a utopias e
rupturas _faziam esquetes ou intervenções como dupla de
besteirol_, e constatam diferenças sacramentadas pelo
tempo, do gosto musical às idéias.
"No Retrovisor", nova peça de Marcelo Rubens Paiva, que
estréia amanhã no teatro Augusta, em São Paulo, põe no
espelho a pulsão de vida dos 80, década estigmatizada
como perdida, segundo o autor.
Sobretudo por meio da música e do teatro, Paiva, 43,
pretende mostrar que aquela geração -também a sua- não
pode ser interpretada apenas sob o viés estreito do
tédio. "Foi uma época pouco valorizada", afirma o
escritor e articulista da Folha.
Para além da aura gótica, por exemplo, houve a afirmação
solar de grupos de comediantes como o carioca Asdrúbal
Trouxe o Trombone (1974-83) e o paulista Ornitorrinco
(fundado em 77). O prólogo da peça, aliás, homenageia
essa turma que improvisou coletivamente e se deu bem.
Como o personagem que lembra a primeira vez que assistiu
ao espetáculo "Trate-me Leão", do Asdrúbal, Paiva também
ficou "chapado" quando viu atores falando a língua das
ruas, usando gírias e palavrões. De quebra, a trilha
incluía o reggae de Bob Marley, outra descoberta.
"Os anos 80 não são o único personagem da peça",
ressalva Marcelo Serrado, 35. "É também um texto sobre a
amizade", diz o intérprete de Ney.
Para Otávio Muller, 37, que vive Marcos, "No Retrovisor"
traz "diálogos contundentes que escapam do opaco". "Há
muita sordidez e humor na história", diz. Em acertos
dúbios, construções e desconstruções do ontem e do hoje,
Marcos e Ney giram em falso tal qual Hamm e Clov em "Fim
de Jogo", de Samuel Beckett (1906-89).
Paiva consente. Não à toa, a metáfora da cegueira também
é explorada no reencontro do "brega" Ney e do
"anarquista" Marcos. Chocam-se em suas concepções de
mundo, mas tampouco recuam. São o que são.
"Não há julgamento, certo e errado", afirma o diretor
Mauro Mendonça Filho, 37. Antigamente, diz ele, o mal
era ideológico. Isso não corresponde mais ao cenário dos
muros caídos na nova velha ordem mundial e pessoal.
Item importante na montagem, Mendonça Filho quer que a
música sirva de movimento de memória ou de "ponte" (The
Strokes, Nirvana, White Stripes), mas sem excesso. Ao
contrário, há silêncios fundamentais neste Paiva, que vê
sua dramaturgia em escaninho diverso das comédias sobre
fantasmas sexuais e comportamentais da vida a dois.
Estão lá traições, onanismos, mas eles agora espreitam o
drama.
NO RETROVISOR. De: Marcelo Rubens Paiva. Direção:
Mauro Mendonça Filho. Cenografia: Cristina Novaes.
Iluminação: Wagner Pinto. Com: Marcelo Serrado e Otávio
Muller. Onde: teatro Augusta (r. Augusta, 943, SP, tel.
0/xx/11/3151-4141). Quando: estréia amanhã, às 22h; sex.,
às 22h; sáb., às 20h e 22h; dom., às 19h. Quanto: R$ 30
e R$ 35 (sáb.). Até 22/12. Patrocinador: Petrobras.
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