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Marcelo
Rubens Paiva é um cara maneiro. Autor de um dos
livros-símbolo da juventude da virada dos anos 70/80,
Feliz ano velho (Prêmio Jabuti) foi traduzido até em
checo, conhece o valor da ironia, tem amigos roqueiros
famosos, adora a Bahia e, cada vez mais, tem escrito
sobre sexo do ponto de vista masculino e hetero.
Na
verdade, em As fêmeas (94), reunião de crônicas
publicadas na Folha de S. Paulo, Marcelo já soltava a
franga, digo, o pinto. Mostrava-se tão atento às
tendências que, na crônica Invejar homossexuais não é
pecado, suspeitava que os homens dos 90 estavam se
espelhando nos gays. Pois bem, eis David Beckham e o
atual me-trossexual.
Metro, o
quê? Metrossexual é o termo que a indústria européia da
moda e dos cosméticos criou para um novo tipo de homem:
o hetero metropolitano, que gosta de ser vaidoso e gasta
tanto quanto a mulher para ficar bonito. Podem até
pensar que ele é gay (e é claro que ele tem amigos
gays), mas o muderninho gosta mesmo é de mulher.
De lá para
cá, Marcelo Paiva aumentou a dosagem literária sexual,
vide a peça Da boca pra fora - E aí, comeu?/99 (Prêmio
Shell) e o novo romance, Malu de bicicleta (Objetiva,
R$30, 224 páginas). Um cínico diria - ou ele trocou as
mulheres pela fantasia ou está treinando para virar
cavalo de Henry Miller (1891-1980).
O narrador
de Malu de bicicleta é Luiz, um galinha que, depois de
comer metade do mulherio paulista, fica inseguro ante a
possibilidade de estar sendo traído pela mulher que ama,
a carioca Malu (parece até que Luiz leu o novo Estudo da
vida sexual do brasileiro, que aponta a mulher do Rio
como a que mais trai no país).
O conflito
entre Luiz e Malu, que deveria ser melhor explorado,
serve de pretexto para que o protagonista faça um
balanço da sua vida de gali-nha. Da iniciação na
infância com a cozinheira Marilda até o encontro com
Malu, no Leblon, a história de Luiz retrata parte
considerável de uma geração do homem brasileiro de
classe média.
Em
especial, do homem branco que tem 40 e poucos anos e,
sexualmente, construiu sua identidade hetero entre a
educação machista e a contemporaneidade liberal. Tem
caráter dúbio, mas desconfia que não se pode viver
eternamente na Terra do Nunca como Peter Pan (Michael
Jackson é exceção, mas ele é um pop-star americano e
negro).
Acompanha-se a história de Luiz com interesse, pois o
texto (coloquial) tem ritmo e alguns episódios são bem
inventivos (como o envolvimento do protagonista com a
professora Clara Braga), mas, no final, fica a impressão
de que Malu na bicicleta é uma crônica espichada, um
filme longa-metragem que ficaria melhor como curta.
De todo
modo, Luiz jamais seria personagem do patético programa
Sexo frágil, da Globo, que recorre até ao clichê
humorístico de pôr atores fazendo papéis femininos
(homenagem a Costinha?). Marcelo Paiva, isto é, Luiz,
não tem vergonha de ser macho - e isso vale 200 pontos
nestes tempos de homens sensíveis, sensíveis até demais.
***
Enfim,
chegou a hora de saber toda a verdade sobre a Matrix.
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