Marcelo Rubens Paiva  notícias  imagens  entrevistas  bibliografia  trabalhos  links

Sala de Leitura

 

 

 

Artigos: Marcelo Rubens Paiva lança Malu de Bicicleta

 

Literatura

Terça, 4 de novembro de 2003, 15h09
Marcelo Rubens Paiva lança "Malu na Bicicleta"

 

Hagamenon Brito

 

Marcelo Rubens Paiva é um cara maneiro. Autor de um dos livros-símbolo da juventude da virada dos anos 70/80, Feliz Ano Velho (Prêmio Jabuti) foi traduzido até em checo, conhece o valor da ironia, tem amigos roqueiros famosos, adora a Bahia e, cada vez mais, tem escrito sobre sexo do ponto de vista masculino e hetero.

Na verdade, em As fêmeas (94), reunião de crônicas publicadas na Folha de S. Paulo, Marcelo já soltava a franga, digo, o pinto. Mostrava-se tão atento às tendências que, na crônica Invejar Homossexuais Não é Pecado, suspeitava que os homens dos 90 estavam se espelhando nos gays. Pois bem, eis David Beckham e o atual metrossexual.

Metro, o quê? Metrossexual é o termo que a indústria européia da moda e dos cosméticos criou para um novo tipo de homem: o hetero metropolitano, que gosta de ser vaidoso e gasta tanto quanto a mulher para ficar bonito. Podem até pensar que ele é gay (e é claro que ele tem amigos gays), mas o muderninho gosta mesmo é de mulher.

De lá para cá, Marcelo Paiva aumentou a dosagem literária sexual, vide a peça Da Boca pra Fora - E aí, comeu?/99 (Prêmio Shell) e o novo romance, Malu de Bicicleta (Objetiva, R$30, 224 páginas). Um cínico diria - ou ele trocou as mulheres pela fantasia ou está treinando para virar cavalo de Henry Miller (1891-1980).

O narrador de Malu de Bicicleta é Luiz, um galinha que, depois de comer metade do mulherio paulista, fica inseguro ante a possibilidade de estar sendo traído pela mulher que ama, a carioca Malu (parece até que Luiz leu o novo Estudo da Vida Sexual do Brasileiro, que aponta a mulher do Rio como a que mais trai no país).

O conflito entre Luiz e Malu, que deveria ser melhor explorado, serve de pretexto para que o protagonista faça um balanço da sua vida de galinha. Da iniciação na infância com a cozinheira Marilda até o encontro com Malu, no Leblon, a história de Luiz retrata parte considerável de uma geração do homem brasileiro de classe média.

Em especial, do homem branco que tem 40 e poucos anos e, sexualmente, construiu sua identidade hetero entre a educação machista e a contemporaneidade liberal. Tem caráter dúbio, mas desconfia que não se pode viver eternamente na Terra do Nunca como Peter Pan (Michael Jackson é exceção, mas ele é um pop-star americano e negro).

Acompanha-se a história de Luiz com interesse, pois o texto (coloquial) tem ritmo e alguns episódios são bem inventivos (como o envolvimento do protagonista com a professora Clara Braga), mas, no final, fica a impressão de que Malu na Bicicleta é uma crônica espichada, um filme longa-metragem que ficaria melhor como curta.

De todo modo, Luiz jamais seria personagem do patético programa Sexo Frágil, da Globo, que recorre até ao clichê humorístico de pôr atores fazendo papéis femininos (homenagem a Costinha?). Marcelo Paiva, isto é, Luiz, não tem vergonha de ser macho - e isso vale 200 pontos nestes tempos de homens sensíveis, sensíveis até demais.

 

Correio da Bahia

 

Publicado no Terra Gente & TV, em 04/11/03

 

  [Sala de leitura]                [Imagens]                [Links]               [Blogspot]               [Webmaster]

[Artigos]