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"Um conto se move neste plano do
homem onde a vida e a expressão dessa vida travam uma
batalha fraterna e o resultado dessa batalha é o próprio
conto, uma síntese viva ao mesmo tempo que uma vida
sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de
um cristal, uma fugacidade numa permanência". A
explicação é de Júlio Cortazar (1914-1984) - ele mesmo
um dos nomes insuperáveis daquele gênero no século 20 -
e vem à mente, sem qualquer propósito de comparação
entre as obras, claro, diante de narrativas breves como
as incluídas em O Homem Que Conhecia As Mulheres,
de Marcelo Rubens Paiva.
No livro, que tem trechos extraídos
de peças do autor e textos que publicou em jornais (Folha
inclusive) e revistas (Playboy entre elas), a
vida e a expressão de personagens urbanos se enfrentam
com o evidente objetivo de recortar um aparte que revele
um pouco do todo da época em que lhes coube viver.
Talvez soe estranha essa idéia de
"enfrentamento" quando se nota a naturalidade do autor
para fazer coincidir existência e linguagem daqueles que
se movimentam nos contos e crônicas da coletânea - tipos
comuns, mulheres sobretudo, de certos ambientes da
capital paulista (gente "descolada", "deprimida",
explodindo em sexo). Mas o conto é o exercício literário
de uma tensão, uma luta de boxe em que se conquista o
leitor por nocaute e não por pontos como no romance -
para usar, de novo, uma imagem cara a Cortazar.
Às vezes, no ringue de Marcelo Rubens
Paiva, tal apropriação de discurso é direta, com o uso
abundante de diálogos. Há outros momentos, porém, em
que, embora dê a palavra ao protagonista, o escritor
parece querer lembrar que não se deve levar tudo tão a
sério.
Um bom exemplo disso é a
história-título. Nela, o tal "homem" não é tido como um
expert em mulheres porque se aventure com "todas",
conforme fazia o narrador de Malu de Bicicleta
(2003), seu romance anterior. No conto, um sujeito que
vende pastéis e caldo-de-cana na Boca do Lixo é levado a
um absurdo julgamento por "prática ilegal" da psicologia
porque seus conselhos resolvem os problemas conjugais
dos fregueses. Se, nos seus aconselhamentos, ele é
simplório, diante do juiz suas palavras se sofisticam
ironicamente: "Muitos [homens] partem para uma aventura
mais perene e escolhem mulheres mais velhas, tipo aquela
que já jogou para debaixo da cama o relógio biológico,
ganha seu próprio soldo, enterrou seus édipos".
A profusão de referências geográficas
e históricas, assim como a recorrente citação de
personalidades, é mais uma tentativa do autor de se
aproximar dos leitores contemporâneos. Entretanto há
sempre nessa atitude uma intenção mais ambiciosa - fixar
este espaço e este tempo, vale dizer, alcançar a
permanência por meio da fugacidade. Eis a "batalha
fraterna" de Paiva.
Rinaldo Gama é doutor em comunicação
semiótica pela PUC-SP e autor de O Guardador de Signos -
Caieiro em Pessoa" (Perspectiva/IMS).
Trecho
"Dizem que 11 minutos é o tempo médio
de um ato sexual. Em 11 minutos fuma-se um cigarro até o
talo. Em 11 minutos descongela-se uma torta no
microondas. Subir 11 andares pela escada dá uns 11
minutos. Em 11 minutos dá para almoçar. Dá também para
fazer duas chegadas em piscinas olímpicas. Deve dar para
atravessar de carro a Paulista, de cabo a rabo, à noite,
se não rolar um assalto. Antes dos próximos comerciais
uma rádio toca 11 minutos de música".
O Homem Que Conhecia As Mulheres
Autor: Marcelo Rubens Paiva
Editora: Objetiva
Quanto: R$26,90 (160 páginas)
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