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Artigos: Rubens Piava une vida e expressão de seus personagens urbanos

 

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Rubens Paiva une vida e expressão de seus personagens urbanos

 

Reinaldo Gama
Especial para a Folha

 

  

"Um conto se move neste plano do homem onde a vida e a expressão dessa vida travam uma batalha fraterna e o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo tempo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência". A explicação é de Júlio Cortazar (1914-1984) - ele mesmo um dos nomes insuperáveis daquele gênero no século 20 - e vem à mente, sem qualquer propósito de comparação entre as obras, claro, diante de narrativas breves como as incluídas em O Homem Que Conhecia As Mulheres, de Marcelo Rubens Paiva. 

No livro, que tem trechos extraídos de peças do autor e textos que publicou em jornais (Folha inclusive) e revistas (Playboy entre elas), a vida e a expressão de personagens urbanos se enfrentam com o evidente objetivo de recortar um aparte que revele um pouco do todo da época em que lhes coube viver. 

Talvez soe estranha essa idéia de "enfrentamento" quando se nota a naturalidade do autor para fazer coincidir existência e linguagem daqueles que se movimentam nos contos e crônicas da coletânea - tipos comuns, mulheres sobretudo, de certos ambientes da capital paulista (gente "descolada", "deprimida", explodindo em sexo). Mas o conto é o exercício literário de uma tensão, uma luta de boxe em que se conquista o leitor por nocaute e não por pontos como no romance - para usar, de novo, uma imagem cara a Cortazar. 

Às vezes, no ringue de Marcelo Rubens Paiva, tal apropriação de discurso é direta, com o uso abundante de diálogos. Há outros momentos, porém, em que, embora dê a palavra ao protagonista, o escritor parece querer lembrar que não se deve levar tudo tão a sério. 

Um bom exemplo disso é a história-título. Nela, o tal "homem" não é tido como um expert em mulheres porque se aventure com "todas", conforme fazia o narrador de Malu de Bicicleta (2003), seu romance anterior. No conto, um sujeito que vende pastéis e caldo-de-cana na Boca do Lixo é levado a um absurdo julgamento por "prática ilegal" da psicologia porque seus conselhos resolvem os problemas conjugais dos fregueses. Se, nos seus aconselhamentos, ele é simplório, diante do juiz suas palavras se sofisticam ironicamente: "Muitos [homens] partem para uma aventura mais perene e escolhem mulheres mais velhas, tipo aquela que já jogou para debaixo da cama o relógio biológico, ganha seu próprio soldo, enterrou seus édipos". 

A profusão de referências geográficas e históricas, assim como a recorrente citação de personalidades, é mais uma tentativa do autor de se aproximar dos leitores contemporâneos. Entretanto há sempre nessa atitude uma intenção mais ambiciosa - fixar este espaço e este tempo, vale dizer, alcançar a permanência por meio da fugacidade. Eis a "batalha fraterna" de Paiva. 

Rinaldo Gama é doutor em comunicação semiótica pela PUC-SP e autor de O Guardador de Signos - Caieiro em Pessoa" (Perspectiva/IMS).

 

Trecho

"Dizem que 11 minutos é o tempo médio de um ato sexual. Em 11 minutos fuma-se um cigarro até o talo. Em 11 minutos descongela-se uma torta no microondas. Subir 11 andares pela escada dá uns 11 minutos. Em 11 minutos dá para almoçar. Dá também para fazer duas chegadas em piscinas olímpicas. Deve dar para atravessar de carro a Paulista, de cabo a rabo, à noite, se não rolar um assalto. Antes dos próximos comerciais uma rádio toca 11 minutos de música".

 

O Homem Que Conhecia As Mulheres

Autor: Marcelo Rubens Paiva
Editora: Objetiva
Quanto: R$26,90 (160 páginas)

 
Publicado na Ilustrada, Folha de São Paulo, edição de 08/07/06

 

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