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Entrevistas

 

 

 

O visceral Marcelo Rubens Paiva

 

O visceral Marcelo Rubens Paiva

por Claudia Altschüller

Um café e muitas histórias. Assim foi o encontro com o escritor Marcelo Rubens Paiva e sua irmã Eliana, num badalado café do Leblon. Sua história começa com uma infância feliz no Rio de Janeiro dos anos 60 - que foi subitamente interrompida pelo desaparecimento do pai, preso político -, passa por uma adolescência marcada pelo acidente que o deixou paraplégico, e floresce numa carreira luminosa. Para o Bolsa de Mulher, o escritor, jornalista e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva fala de sua vida pós-"Feliz Ano Velho" e dos caminhos para a maturidade.

O livro autobiográfico — que o lançou aos 23 anos, transformando-o repentinamente em celebridade — fez com que Marcelo fosse visto como símbolo da juventude dos anos 80. Na nossa entrevista, ele aproveita para contar detalhes de sua vida boêmia, na Paulicéia desvairada, e de "injusta" fama de mulherengo. "Eu acho as mulheres mais divertidas e ricas que os homens, que são muito chatos e óbvios. O fato de ter muitas amigas me atrapalha um pouco, muita gente me acha mulherengo porque estou rodeado de mulheres. Apesar da fama, eu não sou", confessa o escritor.

Algumas das suas aventuras e desventuras amorosas estão retratadas nas peças que cria, como as recentes "Mais-que-Imperfeito" e "E aí, comeu?". Já os fatos corriqueiros são abordados nos artigos que escreve para o jornal "Folha de São Paulo", nos livros e roteiros de cinema. "Eu não sou um escritor profissional, sou um escritor visceral", afirma.

 

BM – Você costuma ser fiel?

MRP – Ah..... (risos) Depende de com quem eu estou. Eu sou de uma geração que morou em comunidade hippie, trocava as namoradas naturalmente, fazia amor livre, mulher transava com mulher e homem com homem. Tudo era muito mais solto. Minha educação sexual nasceu neste ambiente. As coisas começaram a mudar, não sei se foi a Aids ou uma moralização que o mundo trouxe, pois sempre que há uma revolução há posteriormente um caminho inverso. Nos Estados Unidos, veio a era Bush e a era Reagan e passaram a proibir o consumo de maconha, a plataforma de direita passou a ser a plataforma dominante. Na minha época, a plataforma libertária era a dominante. As pessoas adoravam falar publicamente que fumavam maconha. Havia uma coisa que se chamava "amizade colorida", você lembra?

BM – Lembro.

MRP – Eu tenho 42 anos e você é um pouco mais nova. Então, por ter nascido nesse ambiente, é muito careta essa coisa de traição, a palavra é muito violenta.

BM – O assunto apareceu em função dos livros que você recomendou. Gostaria de saber se você é volúvel. Você se apaixona com facilidade?

MRP – Depende da época, depende do que essa pessoa faz. Tem pessoas que não esqueço pro resto da minha vida, outras esqueço em cinco minutos. Eu tenho casos mal resolvidos da minha adolescência que até hoje ainda pairam no ar. Já fui fiel a uma mulher por nove anos.

BM – Você se casou com essa mulher?

MRP – Casei no papel.

BM – Você foi casado duas vezes?

MRP – Uma vez só. Muita gente acha que eu fui casado duas vezes mas foi só uma, não sei o porquê dessa confusão.

BM – Você pensa em casar de novo?

MRP – Penso, eu quase casei de novo agora. Eu gostei de ter casado, meu casamento foi legal.

BM – Você gosta de crianças?

MRP – Gosto, teria filhos também.

BM – Qual o tipo de mulher que te atrai?

MRP – Essa pergunta é difícil. Olha, me atrai de tudo. Já tive todos os tipos de experiências. Já tive experiência com japonesas, coreanas, francesas, argentinas, cariocas, mineiras... Morenas, loiras e ruivas. Ainda não tive uma negra. A regra número um pra mim é inteligência e humor. Só tem humor quem é inteligente, porque ele é uma extensão da inteligência.

BM – É importante para você a beleza na mulher?

MRP – É e não é. As definições são muito complexas. O que é inteligência? O que é beleza? O importante é química, pele. Eu já fui cortejado por uma mulher lindíssima e que está na moda, e eu saí fora, não ataquei como todo homem faz. Ela era plástica demais. Eu gosto de coisas estranhas, gosto de mulheres narigudas.

BM – O que você acha das mulheres siliconizadas, plastificadas e lipoaspiradas?

MRP – "Deixa o peito cair..." (cantarola Marcelo). Eu tive umas relações com mulheres com silicone, eu acho um absurdo. Deixa umas cicatrizes horríveis, é horrível de pegar e você não sabe se dói ou não dói e se pode morder ou não. Algumas mulheres perdem até a sensibilidade. Na minha peça "E aí, comeu?" falo da perda da sensibilidade em nome da estética. Sou totalmente contra ao silicone, acho uma violência colocar borracha dentro do corpo. Ninguém sabe os danos que isso pode causar.

BM – Você é tímido na hora de abordar uma mulher?

MRP – Depende da mulher e das circunstâncias. Eu me acho super tímido, mas elas falam que eu não sou tímido porra nenhuma. Eu não sou daquele tipo de cara que já vai pegando, sou meio verbal, falo e ouço bastante. Algumas mulheres me deixam tímido, outras me deixam à vontade. Eu fico tímido quando gosto muito da mulher.

BM – O que te atraí mais numa mulher?

MRP – O cheiro é importante, mas tem mulher que usa muito perfume e eu não gosto. Tive um caso com uma mulher que usava um perfume horroroso e eu não sabia como falar isso pra ela. Não conseguia dormir com ela por causa disso. Já parei de sair com uma mulher que fumava muito, eu tinha parado de fumar naquela época. Isso parece até sacanagem porque fumo muito hoje em dia.

BM – Qual teu maior defeito?

MRP – Fumar, fumo meio maço por dia. Sou também muito paranóico, tenho uma completa aversão a invasão. Acho que isso acontece por eu ter me aberto muito em "Feliz Ano Velho", quando eu era um absoluto desconhecido. É muito difícil eu dar entrevistas, só falo quando é importante para meu trabalho ou quando é para amigos. Olha, eu detesto falar do Marcelo porque nem eu mesmo sei direito quem é o Marcelo. Não posso falar do Marcelo como um personagem estático, é um personagem de transformação. Aí, você pergunta: "o Marcelo traí?". Hoje, talvez sim.

BM – Você tem alguma superstição?

Eliana – Casar de novo.

MRP – Olha, estou ferrado se minha irmã falar todos os meus segredos.

BM – Da próxima vez, entrevisto as tuas quatro irmãs.

MRP – Vai ficar completamente diferente da entrevista que você está fazendo comigo, é lógico (risos). Voltando às superstições, tenho um monte. Por exemplo, se eu estou com o telefone de uma menina pra ligar e cai o papel no chão, eu desisto de ligar. Se eu saio de casa e o elevador demora muito, eu começo a achar que não vai ser legal. Por outro lado, se o elevador já está no andar, eu acho que vai ser "do caralho". Penso muito em números atualmente. Cento e onze pessoas morreram no massacre do Carandiru e há um mês entrevistei o major Mascarenhas que é um dos acusados. Sabia que em todo lugar que eu olho está escrito 111? Olho pro relógio e é 1h11, vejo a placa de carro e está o 111. Tudo é mau presságio pra mim. Eu acendo incenso em casa todo dia. Não deixo algumas pessoas entrarem lá, nem jornalista fotografar ou filmar. Prefiro dar entrevistas no hall do meu prédio. Faço isso porque sinto como se alguma coisa estivesse sendo roubada de mim, a minha privacidade. Mas a maior superstição que eu tenho é que eu sou filho de Xangô, eu uso toda a parafernália e vou pra Bahia todo ano com uma amiga que é mãe-de-santo. Vira e mexe eu ligo pra ela. Ah, me lembrei de outra: nunca saio em fotos se estou namorando alguém. Fiquei nove anos com minha ex-mulher e nunca publicaram uma foto dela comigo. Eu não fico cultivando este tipo de fofoca "Caras". Eu já namorei pessoas públicas que ninguém imagina. Nunca falo dos meus relacionamentos. Uma vez, a "Revista Veja" me ligou e perguntou se eu estava namorando fulana e eu estava, mas neguei tudinho.

BM – Você já fez análise?

<MRP< b>– Não, fiz psicoterapia yunguiana.

BM – Os teus amigos são de longa data? Você mantém as amizades?

MRP – Não, são amigos novos. Minhas amizades são muito recicladas. Eu tenho 42 anos, conheci meu amigo mais antigo há 18 anos.

BM – Você acredita em pura amizade entre um homem e uma mulher?

MRP – Eu tenho muitas amigas, mais que amigos. Com algumas eu nunca tive nada e outras são minhas ex. Eu acho as mulheres mais divertidas e ricas que os homens. Eles são muito chatos e óbvios. Eu acho engraçado as crises das mulheres, sempre rio. Elas são cheias de conflitos e mudam a cada semana, eu acho isso muito divertido. O fato de ter muitas amigas me atrapalha um pouco, muita gente me acha mulherengo porque estou rodeado de mulheres. Eu tenho fama de mulherengo, mas não sou.


Bolsa de Mulher – Você acha que o Rio e São Paulo estão preparados para receber os deficientes físicos?

Marcelo Rubens Paiva – Acho que são duas cidades diferentes. A qualidade do Rio está no passeio público, nas calçadas e na orla. Por outro lado, as coisas privadas (cinema, teatro, restaurantes) estão muito mal adaptadas. Acontece o oposto em São Paulo, o passeio público é uma porcaria, é muito ruim aquilo que a prefeitura tinha que fazer, e o que é privado é sensacional.

BM – Você parece bastante independente. O teu carro é adaptado?

MRP – Tenho uma vã que tem um elevadorzinho. Esse carro é muito comum nos Estados Unidos. Mas não sou totalmente independente.

BM – Você é católico?

MRP – Eu acho que sou cristão, não sei se eu sou católico. Acho que isso começou tarde, não é uma coisa da adolescência, porque quem teve a vida que eu tive sempre coloca na balança a justiça divina. Eu nunca fiz mal a ninguém, pelo contrário, sempre batalhei pela justiça social. Por que essas coisas acontecem comigo? Por que não acontecem com um filho da puta de um torturador ou de um ladrão? O ladrão que eu digo é um político ladrão. Então, é meio chocante pensar em religião, em justiça e em Deus com todas as injustiças que aconteceram comigo e com a minha família. Por outro lado, existe uma ética cristã que é maravilhosa, tão maravilhosa que tem dois mil anos, atravessou as fronteiras do Oriente Médio e está em todas as partes.

BM – O que você faz na tua hora de lazer?

MRP – Sou uma pessoa igual a todo mundo. Gosto de cinema, teatro, vou pra piscina, vou pra praia, nado, faço yoga, vou muito a restaurantes. Você sabia que restaurante é a praia paulistana? Saio quase todas as noites porque sou um cara meio boêmio e trabalho em casa, chega uma hora do dia que eu preciso sair pra desligar um pouco do trabalho, entendeu? Tem épocas que eu estou mergulhado no trabalho e é muito difícil sair. Prefiro ficar debruçado numa idéia.

BM – Quais os Cds que você costuma escutar?

MRP – Eu escuto de tudo, depende da época. Estou muito roqueiro ultimamente.

BM – Qual o perfume que você usa?

MRP – Eu uso um do Hugo Boss.

BM – O que você está lendo?

MRP – Por trabalhar na Folha e estar mais ou menos ligado ao mercado de livros, leio de um a dois livros por semana. Sou um dos que fazem crítica literária do jornal. Eu leio isso pra poder escolher o que vai ser resenhado ou não. Os livros que estou lendo não são os que me dão prazer, são os livros com os quais eu ganho dinheiro. O sonho da minha vida é ser preso numa cela boa, tipo prisão especial, e levar uma série de livros.

BM – Dos muitos livros que você já leu, qual você recomenda?

MRP – Olha, eu gostei muito de um livro, mas ele é muito masculino. Não sei se a tua leitora vai gostar.

BM – Qual é o nome?

MRP – O "Estação Carandiru", do Drauzio Varella (Companhia das Letras, R$ 24,23). Já faz um tempinho que eu li. Dos antigos, recomendaria "Quincas Borba", de Machado de Assis, e "Madame Bovary", de Gustave Flaubert. Não que eu queira que as tuas leitoras virem mulheres adúlteras, mas eu quero que elas vejam que essas crises que elas têm hoje já têm mais de 100 anos. Quincas Borba é de 1884.

 

Bolsa de Mulher - Você é o único filho homem. Como foi tua criação no meio de quatro irmãs? Você era o filhinho da mamãe?

Marcelo Rubens Paiva – Não, ao contrário. Por ser o único menino, fui o que mais sofri. Quando eu tinha seis anos, por exemplo, minhas irmãs estudavam em escolas particulares boas e eu estudava numa escola pública. Meu pai tinha medo que eu me transformasse num afeminado. Tudo mudou com a morte dele, quando eu tinha quase onze anos de idade. A partir desse momento, ninguém mais era mimado na minha casa, todo mundo teve que batalhar. Era proibido estudar em universidade paga porque não tínhamos dinheiro. Minha mãe ficou viúva com 40 anos e cinco filhos.

BM – O desaparecimento repentino do teu pai marcou muito a tua vida?

MRP – Claro, acho que você fica mais vulnerável porque, até então, o lar era uma fantasia de sonhos. Morávamos super bem, eu tinha muitas irmãs e uma mãe amorosa. Enfim, éramos muito felizes. De repente, foi uma facada que sangrou. Começamos a ver desde cedo que a vida não é fácil. Imagine uma viúva de 40 anos, com cinco crianças e sem dinheiro. Como meu pai era um desaparecido e não era considerado falecido, a gente não recebeu seguro e uma série de coisas.

BM – Tua mãe trabalhava fora até o desaparecimento dele?

MRP – Não, ela era uma dondoca, uma dona-de-casa. Nessa época ela começou a trabalhar fora. Desde cedo, nós começamos a trabalhar também.

BM – Teu pai foi deputado pelo PTB. Você é ligado à política?

MRP – Não, eu só sou filiado ao PV. Sou chamado às vezes para me candidatar a deputado e prefeito, mas nunca aceitei.

BM – Você passou a infância no Rio de Janeiro?

MRP – Até os 12 anos. Fomos depois pra Santos, cidade onde meu pai tinha família e passamos dois anos e meio lá. Aí fomos pra São Paulo e eu acabei indo pra Campinas estudar. Vivo em São Paulo agora, no bairro das Perdizes.

 

Bolsa de Mulher – Você está debruçado em algum projeto?

Marcelo Rubens Paiva – Eu estou debruçado mais no teatro. Meu último livro foi em 96, fiquei meio envolvido com a dramaturgia a partir daí, fico montando uma peça atrás da outra. Montei "E aí, comeu?" e "Mais-que-Imperfeito" e traduzi outra peça. "Feliz ano velho" não tem muito a minha mão, mas eu acabo me dedicando a ela porque dou entrevistas e divulgo. Não paro nunca. Como uma peça demora muito pra ser produzida, eu acabo escrevendo outras nesse intervalo. Eu tenho cinco peças na "gaveta", ou seja, armazenadas no "my documents" do meu computador e em disquetes. Realizo três trabalhos: o primeiro é divulgar as coisas que já aprontei por aí, isso inclui divulgar meus livros e peças, ver ensaios e dar palestras. O segundo é de produção, vou sempre mexendo e remexendo essas coisas que ficam na gaveta, vivo mudando as coisas. Gosto também de pedir para as pessoas lerem o que escrevi. O terceiro é para pagar minhas contas, escrevo para a "Folha de São Paulo". Sou articulista, tenho uma cota de artigos a serem publicados por mês. Escrevo da minha casa. Eu que me pauto e eventualmente eles me pautam. Sou exclusivo do jornal, não posso escrever para nenhum outro lugar.

BM – Você já perdeu algum trabalho no computador?

MRP – Quase perdi. Eu tinha um lap top de veludo que parecia um motel e o negócio de gravar disquete estava quebrado, não dava pra ficar salvando. Comprei em Miami, naquela época se comprava lap top em Miami. Aí um dia eu liguei e começou a sair uma fumaça, desliguei imediatamente. Sorte que consegui salvar o trabalho. Mas, pra falar a verdade, a peça é uma merda, era o meu segundo texto para teatro.

BM – Li em vários lugares que você foi considerado símbolo de uma geração. Você concorda com isso?

MRP – Não sei. Isso é uma coisa que eu não entendi direito porque aconteceu. É engraçado que ontem eu encontrei o Lobão na rua, é muito comum encontrar os amigos nas ruas do Rio. Eu estava sempre no Rio de Janeiro nos anos 80, minha namoradas moravam aqui, vinha pra cá direto. Então, eu convivi muito com o Rio da época do Lobão, Cazuza, Renato Russo....O Renato se hospedava na casa da minha namorada antes de gravar o primeiro disco, ele ainda estava em dúvida se ia morar em São Paulo ou no Rio. Eu estava dentro de tudo de relevante dos anos 80, eram meus amigos, só que eu era o único escritor de todos eles. Os meus amigos eram da área de vídeo, mercado publicitário, da música. O pessoal da música ainda nem tinha lançado o primeiro disco. Esse pessoal era uma turma, ainda nem tinham lançado nem disco. Eu estava dentro dos anos 80, não estava a margem. Daí, dizer que eu sou "o porta voz de uma geração", eu não concordo. Eu acho que eu era o único escritor dessa geração porque, naquela época, ninguém escrevia livros aos 20 anos. Não havia jovens escritores.

BM – Você era um escritor de 20 anos falando sobre os problemas dos jovens.

MRP – Se você pensar bem, Machado de Assis, em "Dom Casmurro", falava dos problemas dos adolescentes. O Sallinger em "O Apanhador no Campo de Centeio" e Thomas Mann em "Morte em Veneza" também retratam, quer dizer, existem milhões de livros retratando. Falam que eu sou porta-voz pela linguagem. A única inovação que eu fiz foi a de trazer a linguagem de rua, gírias para a literatura. Isso não existia na minha época e se tornou um grande debate. Justamente por isso que muitos teóricos falavam que eu não fazia literatura.

BM – Como é teu processo criativo?

MRP – Eu não sou um escritor profissional, sou um escritor visceral. Não sou aquele que lança livro todo ano, na véspera da Bienal ou escreve livro de encomenda. A maioria dos escritores faz isso. O Fernando Morais recebe adiantamento da editora. Eu sou um escritor emocional, escrevo quando tenho vontade de escrever e já tive vários processos literários. Já escrevi um livro em seis anos e uma peça em quatro dias. Atualmente tenho mergulhado numa idéia quando ela aparece.

BM – Você carrega um bloquinho ou um gravador para registrar os momentos criativos na hora em que eles aparecem?

MRP – Não. Se eu tenho uma idéia pra uma peça, eu fico dias ruminando essa idéias. Se eu esqueço, é porque não era importante. Aprendi isso com Antunes Filho. As coisas ficam ruminando na minha cabeça e tudo fica mais estruturado quando resolvo escrever.

BM – Você gosta de fazer roteiro para cinema?

MRP – Roteiro pra cinema é um saco e paga-se muito pouco. Já fiz três roteiros e nenhum foi filmado. O roteirista de cinema, de todo mercado cultural, é o que mais sofre. Ele tem que trabalhar primeiro, só se paga um projeto quando ele entra nas leis de incentivo. Você acaba escrevendo sem saber se vai receber porque todos os contratos são baseados nos patrocínios que o produtor consegue.

BM – Teus livros são mais realistas e urbanos?

MRP – Isso, as peças também. Eu sou, como se fala, um autor naturalista.

BM – Nas peças você fala muito de casamento, namoro e relacionamentos em geral. Algo relacionado com a tua vida?

MRP – Provavelmente.

BM – Como era o programa Fanzine na TV Cultura (SP)?

MRP – O programa era um debate. Ele era temático, tinha dia que a gente discutia Machado de Assis, outro dia a gente discutia maconha. Tínhamos uma banda fixa, o Serginho Groisman também tem agora. Era dirigido pela mesma pessoa que dirige o Serginho agora.

BM – Quanto tempo ficou no ar?

MRP – Dois anos e meio. Se você pensar que são três convidados por noite e em cada ano tem 365 dias, você faz a conta de quantas pessoas eu já entrevistei.

BM – E você entrevistava pessoas de vários segmentos da sociedade?

MRP – Desde intelectuais até a Regininha Poltergeist, aquela que cantava com o Fausto Fawcet.

BM – Qual o conselho que você daria para uma pessoa que deseja escrever?

MRP – Parabéns, se o cara gosta de escrever, continue escrevendo aquilo que der na cabeça, não se prenda a regras e manuais porque teoria literária e dramaturgia foram criadas muito mais para críticos. Agora, se o cara não gosta de escrever e deseja ser escritor porque acha bonito, divirta-se. Não é fácil ficar seis anos em cima de uma obra só, as tentações do mundo externo são muito maiores do que a sensação de você ficar sozinho no seu quarto diante do computador.

BM – Você entrou para a faculdade de comunicação da USP depois do acidente?

MRP – Eu fiz Engenharia Agrícola na Unicamp durante três anos, aí sofri o acidente, fui morar em São Paulo e comecei comunicações na ECA (USP). Escrevi "Feliz Ano Velho" quando estava na ECA, tanto que 90% das pessoas no lançamento do "Feliz Ano Velho" eram colegas da escola. A propaganda foi no boca a boca. Aí eu fiz mestrado em Teoria Literária na Unicamp e há cinco anos fiz um curso de extensão para escritores e jornalistas na Califórnia.

BM – Qual a diferença entre imprensa carioca e a paulista?

MRP – A imprensa carioca é muito novidadeira, está sempre em busca de uma novidade. Chega a eleger uma novidade quando não tem. A personalidade é eleita e depois de um ou dois anos todo mundo se cansa e massacra. Eu, por exemplo, sempre fui muito massacrado pela crítica carioca, eu fui novidadeiro e aí comecei a ser massacrado. A crítica aqui no Rio é muito ruim, ninguém leva a sério. A imprensa paulista é um pouco mais séria, não é fugaz.

 

Publicado na seção Estilo de Viver do site Bolsa de Mulher, em 2001.
 

 

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