Dois
amigos de juventude que compartilharam, em plena
década de 80, ideais artísticos vanguardistas
reencontram-se depois de anos, de maneira bastante
diversa da situação dos anos 80. Um deles, Ney,
sofreu um acidente e perdeu a visão. Acabou fazendo
sucesso como cantor pop de um romantismo duvidoso. O
outro, Marcos, trocou as pretensões artísticas pela
necessidade de ganhar dinheiro num emprego comum
para manter sua família. O encontro dos dois,
interpretados pelos atores Marcelo Serrado e Otavio
Muller, faz com que eles façam uma comparação entre
o que desejavam ser e o que são.
Em entrevista ao Último Segundo,o escritor
Marcelo Rubens Paiva falou sobre o processo de
criação de "No Retrovisor" e sobre seus projetos
futuros.
Último Segundo - Como surgiu a ideia de escrever
a peca?
Marcelo Rubens Paiva - Faz tempo que eu
queria retomar o tema, deficiência, a reabilitação e
os preconceitos. Por outro lado, faz tempo também
que eu queria recuperar a importância dos movimentos
culturais dos anos 80. Juntei estas duas
inquietações escrevendo uma peça em uma semana,
bastante emocional.
US - Você disse que esta participando bastante
dos ensaios. Em que medida este contato tem
modificado o texto? Como isso ocorre?
Paiva - Se Shakespeare participava dos
ensaios, por que não? É uma forma de o autor
conhecer melhor seu texto, aprofundar, ouvir na boca
dos atores, trocar figurinhas com eles e com o
diretor, cortar as gorduras e ressaltar certos
conflitos. Por outro lado, como se trata de uma peça
que homenageia os anos 80, quando o teatro era feito
coletivamente, decidimos criar também coletivamente
a primeira cena da peça.
US - Esse texto tem alguma proximidade temática
com suas outras peças?
Paiva - Todas as minhas peças são diferentes
entre si e são iguais. Isso é algo que persegue um
autor, sempre existe uma pessoalidade não-disfarçada.
Chama-se isso de estilo. Mas acredito que "No
Retrovisor" seja uma evolução da minha dramaturgia,
porque é a última peça. Depois de oito peças,
certamente melhorei, entendo mais a carpintaria e
ouso mais. Esta talvez seja a peça em que mais
explorei os truques do Teatro de Memória, em que a
narrativa corre paralela à dramaturgia. Há grandes
bifes. Quase dois monólogos. Como se dois amigos se
encontrassem, mas falassem para si.
US - Quais seus projetos futuros?
Paiva - Eu estou também em cartaz no TBC ("As
Mentiras que os Homens Contam") , no Rio ("Closet
Show") e, a partir de novembro, no Sérgio Cardoso,
estréia a tradução de fiz de "A Tempestade", do
velho Shakespeare, para o Grupo XPTO.
No Retrovisor. Estréia sexta (11), 22h.
Sextas, 22h. Sábados, 20 e 22h. Domingos, 19h.
Teatro Augusta. Rua Augusta, 943. Consolação. Tel.
(11) 3151-2464. Ingressos: R$ 30 e R$ 35.