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TRIP Numa
entrevista à TRIP, Marcelo Yuka,
ex-bateirista de O Rappa, disse que ninguém
pode ser feliz numa cadeira de rodas. Você
concorda?
MARCELO RUBENS PAIVA Isso é bobagem. Sou
paraplégico há 23 anos, já viajei o mundo e
conheci muito deficiente realizado. Tenho
amigo instrutor de mergulho, alpinista,
advogado, arquiteto, empresário. O dono do
Unibanco é um paraplégico. O Yuka não pode
falar pelos outros. Eu, por exemplo, sou
feliz. Meu problema não é a cadeira de
rodas, mas os problemas de um cara de 44
anos. Uma vez fui fazer terapia e disse
logo: "Não vim aqui discutir minha
deficiência, vim discutir minha relação com
minha mãe, com minha mulher, minhas
frustrações". Acontece a mesma coisa quando
vou tomar um passe na umbanda. Falo logo pro
pai-de-santo: "Não quero que você diga 'Ah
meu filho, você vai andar'. Vim aqui para
ouvir: 'Ah meu filho, você vai encontrar um
grande amor, vai ter sorte na profissão'".
Não fico pensando 24 horas em voltar a
andar.
Você acha que o discurso do Yuka é tão
revoltado porque o acidente é recente?
A reação dele é natural. O processo de
aceitação pode ser demorado. O meu foi,
levei bons dois anos para começar a sair de
casa sem me sentir inseguro, envergonhado,
sem me incomodar com as pessoas me olhando
de um jeito estranho. E o Yuka já era famoso
quando sofreu o acidente, já tinha uma
imagem pública. Um choque muito grande, dá
uma guinada na vida, mudam as amizades, a
profissão, você vira outra pessoa. Conversei
isso com ele e acho que ele dá sinais de
otimismo. Por exemplo, demorei dez anos para
dirigir, e ele já me perguntou sobre isso. E
tem outro detalhe: o Rio de Janeiro é uma
cidade muito corporal. Lá se valoriza muito
o cara malhado, o esporte.
Já se passaram 23 anos desde o acidente.
Os momentos de revolta e frustração voltam
com frequência?
A frustração é recorrente. Por exemplo, meus
amigos jogam futebol na segunda à noite.
Você acha que não adoraria ir com eles? Eu
era surfista. Péssimo surfista, mas adorava
pegar onda. E quando a cadeira de rodas
quebra no meio do nada e você tem de ligar
para um amigo te resgatar? Essas limitações
me frustram.
Mara Gabrilli, que foi TRIP Girl, é
tetraplégica e dirige uma ONG para
reabilitar deficientes, acha que as
pesquisas com células-tronco podem reverter
o quadro de insensibilidade dos
tetraplégicos...
[Interrompendo.] Até eu tenho vontade de me
jogar nessas pesquisas. Como sou
tetraplégico, se conseguisse aumentar a
sensibilidade um pouco mais, poderia mexer
as mãos. Seria fascinante.
Você falou sobre a ditadura do corpo no
Rio de Janeiro. Você é vaidoso?
Faço ginástica por pura necessidade. Por
mim, ficava fumando cigarro na varanda. Mas
me sinto melhor quando me exercito. Desde o
começo da minha deficiência, nado, adoro
soltar meu corpo numa piscina. Também
poderia jogar tênis, participar da maratona
de Nova York, só que tenho preguiça, não
tenho vocação competitiva. Nunca fui viciado
em esporte.
Outra fama que você tem, mesmo entre os
amigos, é de ser arrogante, mimado. Quem é,
enfim, o Marcelo Rubens Paiva?
Sou arrogante e mimado porque sou tímido.
Larguei a televisão porque eu parecia
metido, bravo, mal-humorado. A arrogância é
sempre uma defesa.
Qual foi o maior fracasso da sua vida?
Fiz um monte de bobagens na vida. Televisão
foi uma delas. Fiz o Fanzine [na TV
Cultura, entre 92 e 94] um pouco pela
militância, para ter um deficiente
apresentando televisão. E também para ganhar
dinheiro, claro. Tem fracasso que vale a
pena.
Como, por exemplo, escrever o roteiro do
programa da Tiazinha?
A Tiazinha foi um barato! Trabalhei com um
amigo, o [diretor] Mauro Lima, a gente se
divertia horrores. Ninguém viu, mas me
diverti muito. Você não deve se frustrar por
um fracasso, mas sim por não ter alcançado
aquilo a que se propôs. Passei uma temporada
em Brasília, na casa em que a Legião Urbana
ensaiava. Eles acordavam muito cedo para
ensaiar, e eu sempre durmo e acordo muito
tarde. O Renato [Russo] estava compondo
"Tempo Perdido" e queria que eu ajudasse com
a letra. Lembro que acordava mal-humorado
com aquele solo de guitarra. Tomava
café-da-manhã, e ele ali do lado falando:
"Vamos fazer juntos". Mas eu tinha acabado
de acordar e nunca estava a fim. Dessa, eu
me arrependo.
Você já escreveu sete livros, sete peças,
apresentou programa de TV, é colunista de
jornais e revistas. O que ainda falta fazer?
Quero mais. Quero escrever uma peça para a
Marília Pêra, quero que outro livro meu seja
adaptado para o cinema [Feliz Ano Velho
virou filme em 1987]. E gostaria de viajar
mais.
Qual o seu defeito?
Trabalhar demais. Eu deveria ser mais
seletivo.
E pessoal?
Todos. Sou chato, mal-humorado, ranzinza,
impaciente. A ignorância me incomoda.
Mas essa raiva toda você não mostra nas
suas críticas, sempre benevolentes, na
Folha de S.Paulo...
Isso é outra coisa. Como escritor, não me
sinto bem falando mal de outro escritor. A
gente recebe muitos livros para resenhar. No
Brasil, se lançam cem livros por mês. Quando
vou fazer uma resenha, procuro fazer dos
geniais. Não vou escrever: "Esse livro é uma
merda". E tem outra: não sou crítico
literário, sou repórter. Minha função é
mostrar os livros bons que estão sendo
lançados. Por isso sou benevolente.
Fora do Brasil, há um grupo de autores
bem-sucedidos que fala do mundo
contemporâneo, como Nick Hornby, autor de
Alta Fidelidade, ou Candance Bushnell,
de Sex and the City. Por que aqui
livros como Malu de Bicicleta, que se
parece um pouco com isso, só rechaçados?
Nos Estados Unidos não há preconceito contra
o que faz sucesso, é comercial ou palatável.
Várias críticas dos meus livros falam: "O
livro é bom, muito interessante, mas não tem
nenhuma novidade". Mas não quero escrever
nenhuma novidade! Quero é escrever livro
bom. Na crítica brasileira, há essa bobagem
de inovar, de desconstruir. O mesmo tipo de
preconceito que a televisão sofreu quando
era considerada a "quinta-essência do lixo",
lembra? Hoje, TV é arte também. Seinfeld é
tão genial quanto Millôr Fernandes, Chaplin,
irmãos Marx. Sou comparado ao Nick Hornby,
mas nunca li um livro dele. Falaram que faço
citações musicais como ele. Ei, isso não é
meu, não é do Nick Hornby nem do Oswald de
Andrade. Isso é literatura.
Você foi casado por nove anos e depois se
separou. Ainda acredita em casamento?
Acredito. Meu casamento foi maravilhoso,
muito feliz. Repetiria de novo e de novo.
Mas minha obra não é só sobre mim. A
atmosfera em que vivo hoje é a da galinhagem.
Já eu não sei ficar, não sou dessa geração.
Gosto é de namorar.
A solidão te assusta?
Nem um pouco. Talvez porque aprendi, depois
da separação, a ficar sozinho. Você tem que
extrair vantagem de tudo. Se está sozinho,
aproveita a liberdade fascinante. Sozinho
também é legal. Você começa a conviver com
outras pessoas sozinhas, sai para beber,
viaja sozinho, vai ao cinema sozinho. E fica
mais aberto a conhecer gente. Outro dia,
conheci uma galerinha no cinema, acabei indo
com eles ao AmpGalaxy [mix de loja,
restaurante e boate de música eletrônica em
São Paulo]. No dia seguinte, eles me levaram
para ver um filme que eu jamais iria ver por
conta própria e adorei. Bom estar com alguém
de que você gosta. Mas não vou ficar com
alguém só para não ficar sozinho.
Quanto o sexo é importante na sua vida?
Bastante. Sexualidade é uma coisa ampla. Já
fiz sexo de várias maneiras. Evidente que
você tem que considerar minha limitação. Por
exemplo: posso fazer sexo numa piscina?
Posso. Posso fazer sexo no mar? Aí já é mais
difícil. Posso fazer na areia? Posso, mas
vai ser difícil voltar para a cadeira
depois. De pé? Posso. No banheiro de uma
festa? Posso, se a largura da porta não
impedir a passagem da cadeira. Evidente que
pode ser que algumas mulheres se decepcionem
porque não sou um atleta sexual. Se tenho
tesão? Tenho. Todas essas perguntas que
vocês fazem, eu respondo rapidinho
[debochado].
Você já disse que rap em português é uma
bobagem. Sustenta?
Imagina, isso foi puro preconceito meu. Hoje
em dia, adoro rap. É que morei nos Estados
Unidos e, quando voltei ao Brasil, vi os
negros pobres brasileiros vestindo os
casacos dos negros americanos, se
cumprimentando como americano e andando como
americano. Achava um absurdo. Como é que a
gente importa essa cultura tendo samba,
manguebeat, forró? Depois vi que o rap é uma
linguagem fantástica, uma forma de expressão
brilhante. O disco dos Racionais é o que
mais escuto. A capacidade de contar história
que o Mano Brown tem é impressionante. O
Brasil sempre faz naturalmente essa
antropofagia.
Você participou da formação do PT, quando
ainda era estudante na Unicamp. Que
avaliação faz do primeiro ano do governo
Lula?
Decepcionante. Fizeram um acerto econômico,
aprovaram as reformas, mas não aconteceu. O
programa político não está sendo respeitado.
Estamos esperando o PT assumir, enquanto
quem está lá parece mais uma frente
política, um partido de centro. E a gente
elegeu um partido de esquerda, a gente quer
igualdade social.
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