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Entrevistas

 

 

 

Homem na pista

 

Homem na pista

Em entrevista nas Páginas Negras da revista TRIP, o escritor continua dando ibope

Em 1982, ele tinha 20 e poucos anos e começava a se adaptar à vida numa cadeira de rodas quando lançou o best-seller Feliz Ano Velho. Hoje quarentão, o escritor Marcelo Rubens Paiva continua dando ibope. Nesta entrevista, ele fala do lado bom do acidente que o vitimou, revela os conselhos que deu a Marcelo Yuka, ex-Rappa, e conta que transa e pode ter filhos - mas prefere, antes, encontrar um grande amor.

Em meados do ano passado, quando lançou seu sétimo livro, Marcelo Rubens Paiva caiu do elevador de seu carro adaptado. O tombo rendeu-lhe uma tendinite no braço direito, que o obrigou a ficar de molho por três meses. O livro Malu de Bicicleta colocou seu nome de volta na lista dos mais vendidos, pouco mais de 21 anos depois do sucesso de Feliz Ano Velho (1982), obra autobiográfica que narra o acidente em que ficou tetraplégico, em 1979, aos 20 anos.

De lá pra cá, Marcelo lançou seis romances (alguns fracassos de crítica e venda), sete peças de teatro (uma delas vencedora do prêmio Shell), apresentou um programa de TV (o Fanzine, na TV Cultura), escreveu o roteiro de outro (o fiasco As Aventuras da Tiazinha, na Bandeirantes) e ganhou fama de mimado e arrogante. Hoje, aos 44 anos, ele admite que era mesmo pedante. Mas por pura defesa. "Não tinha bagagem para lidar com as cobranças quando publiquei Feliz Ano Velho", confessa. "Minha reação foi a pior possível: fiquei mimado, blasé."

O tempo acabou com a insegurança e também amenizou a angústia em relação à deficiência física. "Meus problemas são típicos de um cara de 44 anos", diz. Marcelo não segue nenhuma religião. Vez ou outra vai a um centro de umbanda. Mas não espera que o pai-de-santo diga que ele vai andar. Prefere ouvir um: "Meu filho, você vai encontrar um grande amor, vai ter sorte na profissão". Como qualquer cara.

Sem tesão não há solução

Filho de uma advogada e de um ex-deputado morto pela ditadura em 1971, Marcelo viveu a infância no Rio de Janeiro, a adolescência em São Paulo e Santos e os primeiros anos de faculdade em Campinas. Foi num mergulho no lago de um sítio que ele fraturou a coluna. O resto da história você conhece.

 

Reportagem: Giuliana Tatini
Foto: Thelma Vilas Boas

 

 

TRIP Numa entrevista à TRIP, Marcelo Yuka, ex-bateirista de O Rappa, disse que ninguém pode ser feliz numa cadeira de rodas. Você concorda?
MARCELO RUBENS PAIVA
Isso é bobagem. Sou paraplégico há 23 anos, já viajei o mundo e conheci muito deficiente realizado. Tenho amigo instrutor de mergulho, alpinista, advogado, arquiteto, empresário. O dono do Unibanco é um paraplégico. O Yuka não pode falar pelos outros. Eu, por exemplo, sou feliz. Meu problema não é a cadeira de rodas, mas os problemas de um cara de 44 anos. Uma vez fui fazer terapia e disse logo: "Não vim aqui discutir minha deficiência, vim discutir minha relação com minha mãe, com minha mulher, minhas frustrações". Acontece a mesma coisa quando vou tomar um passe na umbanda. Falo logo pro pai-de-santo: "Não quero que você diga 'Ah meu filho, você vai andar'. Vim aqui para ouvir: 'Ah meu filho, você vai encontrar um grande amor, vai ter sorte na profissão'". Não fico pensando 24 horas em voltar a andar.

Você acha que o discurso do Yuka é tão revoltado porque o acidente é recente?
A reação dele é natural. O processo de aceitação pode ser demorado. O meu foi, levei bons dois anos para começar a sair de casa sem me sentir inseguro, envergonhado, sem me incomodar com as pessoas me olhando de um jeito estranho. E o Yuka já era famoso quando sofreu o acidente, já tinha uma imagem pública. Um choque muito grande, dá uma guinada na vida, mudam as amizades, a profissão, você vira outra pessoa. Conversei isso com ele e acho que ele dá sinais de otimismo. Por exemplo, demorei dez anos para dirigir, e ele já me perguntou sobre isso. E tem outro detalhe: o Rio de Janeiro é uma cidade muito corporal. Lá se valoriza muito o cara malhado, o esporte.

Já se passaram 23 anos desde o acidente. Os momentos de revolta e frustração voltam com frequência?
A frustração é recorrente. Por exemplo, meus amigos jogam futebol na segunda à noite. Você acha que não adoraria ir com eles? Eu era surfista. Péssimo surfista, mas adorava pegar onda. E quando a cadeira de rodas quebra no meio do nada e você tem de ligar para um amigo te resgatar? Essas limitações me frustram.

Mara Gabrilli, que foi TRIP Girl, é tetraplégica e dirige uma ONG para reabilitar deficientes, acha que as pesquisas com células-tronco podem reverter o quadro de insensibilidade dos tetraplégicos...
[Interrompendo.] Até eu tenho vontade de me jogar nessas pesquisas. Como sou tetraplégico, se conseguisse aumentar a sensibilidade um pouco mais, poderia mexer as mãos. Seria fascinante.

Você falou sobre a ditadura do corpo no Rio de Janeiro. Você é vaidoso?
Faço ginástica por pura necessidade. Por mim, ficava fumando cigarro na varanda. Mas me sinto melhor quando me exercito. Desde o começo da minha deficiência, nado, adoro soltar meu corpo numa piscina. Também poderia jogar tênis, participar da maratona de Nova York, só que tenho preguiça, não tenho vocação competitiva. Nunca fui viciado em esporte.

Outra fama que você tem, mesmo entre os amigos, é de ser arrogante, mimado. Quem é, enfim, o Marcelo Rubens Paiva?
Sou arrogante e mimado porque sou tímido. Larguei a televisão porque eu parecia metido, bravo, mal-humorado. A arrogância é sempre uma defesa.

Qual foi o maior fracasso da sua vida?
Fiz um monte de bobagens na vida. Televisão foi uma delas. Fiz o Fanzine [na TV Cultura, entre 92 e 94] um pouco pela militância, para ter um deficiente apresentando televisão. E também para ganhar dinheiro, claro. Tem fracasso que vale a pena.

Como, por exemplo, escrever o roteiro do programa da Tiazinha?
A Tiazinha foi um barato! Trabalhei com um amigo, o [diretor] Mauro Lima, a gente se divertia horrores. Ninguém viu, mas me diverti muito. Você não deve se frustrar por um fracasso, mas sim por não ter alcançado aquilo a que se propôs. Passei uma temporada em Brasília, na casa em que a Legião Urbana ensaiava. Eles acordavam muito cedo para ensaiar, e eu sempre durmo e acordo muito tarde. O Renato [Russo] estava compondo "Tempo Perdido" e queria que eu ajudasse com a letra. Lembro que acordava mal-humorado com aquele solo de guitarra. Tomava café-da-manhã, e ele ali do lado falando: "Vamos fazer juntos". Mas eu tinha acabado de acordar e nunca estava a fim. Dessa, eu me arrependo.

Você já escreveu sete livros, sete peças, apresentou programa de TV, é colunista de jornais e revistas. O que ainda falta fazer?
Quero mais. Quero escrever uma peça para a Marília Pêra, quero que outro livro meu seja adaptado para o cinema [Feliz Ano Velho virou filme em 1987]. E gostaria de viajar mais.

Qual o seu defeito?
Trabalhar demais. Eu deveria ser mais seletivo.

E pessoal?
Todos. Sou chato, mal-humorado, ranzinza, impaciente. A ignorância me incomoda.

Mas essa raiva toda você não mostra nas suas críticas, sempre benevolentes, na Folha de S.Paulo...
Isso é outra coisa. Como escritor, não me sinto bem falando mal de outro escritor. A gente recebe muitos livros para resenhar. No Brasil, se lançam cem livros por mês. Quando vou fazer uma resenha, procuro fazer dos geniais. Não vou escrever: "Esse livro é uma merda". E tem outra: não sou crítico literário, sou repórter. Minha função é mostrar os livros bons que estão sendo lançados. Por isso sou benevolente.

Fora do Brasil, há um grupo de autores bem-sucedidos que fala do mundo contemporâneo, como Nick Hornby, autor de Alta Fidelidade, ou Candance Bushnell, de Sex and the City. Por que aqui livros como Malu de Bicicleta, que se parece um pouco com isso, só rechaçados?
Nos Estados Unidos não há preconceito contra o que faz sucesso, é comercial ou palatável. Várias críticas dos meus livros falam: "O livro é bom, muito interessante, mas não tem nenhuma novidade". Mas não quero escrever nenhuma novidade! Quero é escrever livro bom. Na crítica brasileira, há essa bobagem de inovar, de desconstruir. O mesmo tipo de preconceito que a televisão sofreu quando era considerada a "quinta-essência do lixo", lembra? Hoje, TV é arte também. Seinfeld é tão genial quanto Millôr Fernandes, Chaplin, irmãos Marx. Sou comparado ao Nick Hornby, mas nunca li um livro dele. Falaram que faço citações musicais como ele. Ei, isso não é meu, não é do Nick Hornby nem do Oswald de Andrade. Isso é literatura.

Você foi casado por nove anos e depois se separou. Ainda acredita em casamento?
Acredito. Meu casamento foi maravilhoso, muito feliz. Repetiria de novo e de novo. Mas minha obra não é só sobre mim. A atmosfera em que vivo hoje é a da galinhagem. Já eu não sei ficar, não sou dessa geração. Gosto é de namorar.

A solidão te assusta?
Nem um pouco. Talvez porque aprendi, depois da separação, a ficar sozinho. Você tem que extrair vantagem de tudo. Se está sozinho, aproveita a liberdade fascinante. Sozinho também é legal. Você começa a conviver com outras pessoas sozinhas, sai para beber, viaja sozinho, vai ao cinema sozinho. E fica mais aberto a conhecer gente. Outro dia, conheci uma galerinha no cinema, acabei indo com eles ao AmpGalaxy [mix de loja, restaurante e boate de música eletrônica em São Paulo]. No dia seguinte, eles me levaram para ver um filme que eu jamais iria ver por conta própria e adorei. Bom estar com alguém de que você gosta. Mas não vou ficar com alguém só para não ficar sozinho.

Quanto o sexo é importante na sua vida?
Bastante. Sexualidade é uma coisa ampla. Já fiz sexo de várias maneiras. Evidente que você tem que considerar minha limitação. Por exemplo: posso fazer sexo numa piscina? Posso. Posso fazer sexo no mar? Aí já é mais difícil. Posso fazer na areia? Posso, mas vai ser difícil voltar para a cadeira depois. De pé? Posso. No banheiro de uma festa? Posso, se a largura da porta não impedir a passagem da cadeira. Evidente que pode ser que algumas mulheres se decepcionem porque não sou um atleta sexual. Se tenho tesão? Tenho. Todas essas perguntas que vocês fazem, eu respondo rapidinho [debochado].

Você já disse que rap em português é uma bobagem. Sustenta?
Imagina, isso foi puro preconceito meu. Hoje em dia, adoro rap. É que morei nos Estados Unidos e, quando voltei ao Brasil, vi os negros pobres brasileiros vestindo os casacos dos negros americanos, se cumprimentando como americano e andando como americano. Achava um absurdo. Como é que a gente importa essa cultura tendo samba, manguebeat, forró? Depois vi que o rap é uma linguagem fantástica, uma forma de expressão brilhante. O disco dos Racionais é o que mais escuto. A capacidade de contar história que o Mano Brown tem é impressionante. O Brasil sempre faz naturalmente essa antropofagia.

Você participou da formação do PT, quando ainda era estudante na Unicamp. Que avaliação faz do primeiro ano do governo Lula?
Decepcionante. Fizeram um acerto econômico, aprovaram as reformas, mas não aconteceu. O programa político não está sendo respeitado. Estamos esperando o PT assumir, enquanto quem está lá parece mais uma frente política, um partido de centro. E a gente elegeu um partido de esquerda, a gente quer igualdade social.

 


Marcelo dá autográfos no lançamento do best-seller Feliz Ano Velho

 

 

Fonte: revista TRIP, edição 121, abril 2004.
Extraído da Revista Sentidos

 

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