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Tal
como um pai desnaturado, o escritor Marcelo Rubens
Paiva, cronista do Estado, confessa não
gostar mais de Feliz Ano Velho, livro que o
lançou à fama e o ajudou a expurgar sofrimentos depois
do acidente que sofreu em 1979. Argumenta que o livro
não envelheceu, enquanto ele mudou bastante. Um exemplo
fútil, mas simbólico, é o tênis que o autor usava no dia
que recebeu a reportagem - um All Star, que em Feliz
Ano Velho é apontado por ele como coisa dos
riquinhos paulistanos, numa defesa apaixonada do velho
Bamba, que não existe mais. 'Está vendo como Feliz
Ano Velho fica parado enquanto o mundo evolui?',
diverte-se.
Mas há coisas que não mudam nunca, e na obra de Marcelo
é a curiosidade sobre o universo feminino, que sempre se
traduz em personagens deliciosas. Agora, ao mesmo tempo
que repassa a obra toda a limpo - todos os seus livros
serão relançados pela Objetiva -, ele lança O Homem
Que Conhecia as Mulheres. É um livro híbrido, que
começa com uma pequena série de perfis femininos
aparentemente - só aparentemente - estereotipados, e
quatro contos, um deles sobre o tal homem que de fato
conhecia as mulheres - não um Don Juan, mas um singelo
vendedor de pastel e caldo-de-cana da Rua Major Sertório.

Feliz Ano Velho vai ser reeditado. Você acha
que ele sobreviveu?
Sem
dúvida. Ele é igual ao Ronaldo: quando você acha que ele
está morto... Hoje ele é adotado em várias escolas, e os
filhos dos meus amigos lêem - daqui a pouco, vão ser os
netos deles.
Eu
particularmente não gosto muito do livro, já pensei até
em não permitir a publicação dele, porque é uma invasão
à minha privacidade. Quando ele foi lançado, eu era um
reles estudante de Comunicação da ECA. Agora, sou uma
pessoa que é reconhecida na rua, que as pessoas querem
fotografar nos eventos.
E ele
invade muito a minha privacidade, uma coisa que eu
controlo mais hoje em dia. Não sou mais daquele jeito há
muito tempo. Então, é um livro que parece O Retrato
de Dorian Gray ao contrário - eu envelheço, mas ele
não envelhece. Eu já mudei meu estilo, tenho outras
preocupações, já sou um deficiente diferente daquele
deficiente do Feliz Ano Velho. Como pai dele, não
tenho mesmo simpatia por esse livro, apesar de ele ter
me tirado da dureza que eu vivia na juventude - eu era
um estudante duro.
Naquela época a literatura deu dinheiro a você,
então?
Sim,
fui um dos primeiros da turma a ter videocassete, fax,
apartamento próprio, viagem para a Europa. Com 20 anos
de idade, isso era um privilégio.
Ainda muito jovem, você passou do acidente para a
literatura, dali acelebridade. Como foi aquela época?
Eu
tinha vontade de ser uma coisa, mas tinha de ser outra
coisa por ser o varão de uma família de seis mulheres -
meu pai morreu (o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado
pelo regime militar em 1971) e eu fiquei com seis
mulheres para tomar conta. Mas com 20 anos, eu vi que
minhas irmãs ganhavam mais do que eu. Eu poderia fazer o
que eu quisesse, que era escrever.
Fui
para a ECA, queria fazer Cinema, mas o prédio tinha dois
andares com escada. Fui fazer Rádio e TV porque tinha
elevador. O (editor) Caio Graco, que sempre freqüentou a
minha casa, me sugeriu que escrevesse o livro. Não sei
se falou isso como uma forma de eu me encontrar
terapeuticamente, de pôr para fora algumas angústias
durante a reabilitação física. Caí nesse conto e
escrevi, levei a sério. O livro foi propositalmente
coloquial, eu calculei que faltava naquele momento um
livro que falasse a linguagem das ruas. Quando o livrou
foi publicado foi um espanto. O (jornalista) Pepe
Escobar escreveu que não era literatura. Imagine, criar
barreiras para literatura. O livro só foi respeitado com
o tempo.
Agora ele é adotado nas escolas.
Sim,
porque traz dilemas muito juvenis. É sobre construção de
identidade, de fé, não é só um livro sobre o acidente.
Ficou como retrato daquela época também.Já vi que
você traiuo Bamba e agora usa All Star.
É,
agora custa R$ 50 na Galeria do Rock! Está vendo como
Feliz Ano Velho fica parado enquanto o mundo evolui?
O All Star que era símbolo do mauricinho paulistano
agora custa R$ 50. E nem se acha mais Bamba hoje em
dia...
Você disse que Feliz Ano Velho não foi entendido pela
crítica na época. Anos depois, você mesmo fez críticas
literárias. O que acha da crítica literária brasileira?
O crítico é temeroso, vai muito de acordo com a onda do
mercado, sem ver o que está por fora. Não fui exatamente
um crítico, fui mais um repórter especial. Então, me era
permitido criticar livros de fora da lógica do mercado.
E a lógica do mercado são as grandes editoras, e os
livros de amigos dos amigos.
É panela, então?
Sim, o
mercado é uma panela. As grandes queixas que a gente
escuta do jornalismo cultural, e eu faço parte dele há
muitos anos, é que ele é feito dentro da redação, e a
gente não sabe o que está rolando fora. Eu acho que
existe uma letargia no jornalismo cultural brasileiro
que é crônica.
Os tipos femininos são os mais interessantes dos seus
livros. Agora, vem O Homem Que Conhecia as Mulheres.
Você acha que conhece as mulheres?
Claro
que não! Quando eu acho que conheço, elas me
surpreendem. Eu conheço aparentemente, profundamente de
jeito nenhum. Gosto mesmo é do universo feminino. Não
sou só eu que fico fascinado pela mulher, mas todos os
escritores. O universo masculino é o futebol alemão e o
universo feminino é o futebol brasileiro - pode perder
para uma Nigéria e dar uma goleada numa Argentina. Mas,
na verdade, O Homem Que Conhecia as Mulheres não
sou eu, é o que menos tem cara de quem conhece as
mulheres.
É possível que alguma amiga sua se reconheça em algum
daqueles perfis que abrem o livro?
Já
ficaram. Quatro amigas minhas acharam que eu estava
falando delas num deles. Estava mesmo, é a mistura
delas. É normal, amigos sempre se lêem no que eu
escrevo. A Marilene Felinto falava que o amigo de
escritor tem de saber que pode um dia virar literatura.
Já li que você tem fama de arrogante. E uns amigos já
disseram que você é conhecido mesmo como conquistador.
Qual das famas é a mais verdadeira?
Nenhuma. Veja Machado de Assis. O Brás Cubas era um
tremendo galinha. Mas não se pode dizer que o Machado de
Assis foi um galinha. Não sou um conquistador. As
pessoas acham que eu sou arrogante porque não sou
deslumbrado, desde o começo da minha carreira. Achavam
que eu tinha de sorrir para o sucesso, achar que é bom
ser famoso, tirar fotos nos eventos. Querem ver o
aleijadinho sorrindo, porque sofreu o acidente mas
acabou ganhando dinheiro, deu certo. Mas eu não sorrio?
Serviço
O Homem Que Conhecia as Mulheres.
De Marcelo Rubens Paiva. 160 págs. R$ 26,90. Objetiva.
Spot. Alameda Ministro Rocha Azevedo, 72, 3283-0946.
Domingo, 20 h
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