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"Algumas dúvidas existenciais de Feliz
Ano Velho hoje em dia me parecem
ridículas"
IMPRENSA - Recentemente, você declarou
que não gosta mais do livro Feliz Ano
Velho, que o projetou. O que aconteceu?
Marcelo Rubens Paiva - Mudei meu estilo
literário, cresci, amadureci. Algumas
dúvidas existenciais de Feliz ano Velho,
hoje em dia, parecem ridículas. Eu era um
menino. Meu quarto não é mais o quarto de
quando eu tinha 20 anos. Não tem mais pôster
do Led Zeppelin, carrinho matchbox, livros
beats. Meu quarto hoje tem um quadro bonito.
Com o Feliz Ano Velho é isso: eu cresci, mas
aquele quarto continua igual. Isso é meio
aflitivo.

Pendurado sobre a
privada, o diploma de Comunicação Social,
curso que Paiva concluiu em 1988. O canudo
foi retirado em 1994.
IMPRENSA - Notamos que seu diploma de
Comunicação Social está pendurado na parede
do banheiro. Por que você o colocou lá?
Marcelo - Porque meu diploma não vale
nada. Pra que eu fiz faculdade de Rádio e
TV, de Jornalismo? Pra nada. Hoje em dia, o
jornalismo perdeu o rumo, saiu completamente
do trilho. O jornalismo, hoje, é um "Estado
independente". Isso é um pouco resultado de
anos de ditadura, de controle das famílias
poderosas, que sempre têm ligações muito
promíscuas com o Estado. Um país tão
traumatizado pela censura, pela violência,
pelo cerceamento da liberdade de expressão,
não consegue montar um controle ético da
mídia. Não consegue evitar que o Datena fale
os absurdos que fala.
IMPRENSA – Você, que trabalhou muito
tempo na TV Cultura, defende que a emissora
tenha comerciais, como os das Casas Bahia?
Marcelo - Sempre defendi isso. O
problema da TV Cultura é a forte ligação com
o governo: na época do Maluf eram
malufistas, na época do PSDB eram tucanos.
Com comerciais, dá pra ter mais liberdade.
IMPRENSA - Qual foi a diferença entre
trabalhar na TV Cultura (onde foi
apresentador dos programas "Leitura Livre" e
"Fanzine") e na Rede TV! (onde foi chefe de
redação do canal e do programa "Super Pop",
com Adriane Galisteu)?
Marcelo - A Cultura é aquilo que a gente
sonha em TV: em primeiro lugar vem o
compromisso ético, e depois a audiência. A
gente queria que desse audiência, lógico.
Mas não forçava a barra. Eu, por exemplo,
não chamava o É o Tchan, chamava o Mangue
Beat. A gente estava mais preocupado com as
questões culturais. Já a Rede TV!, não
pensava assim. Quando ela começou, queria
ser uma TV Manchete mais qualificada. A
idéia era ser uma televisão de qualidade.
IMPRENSA – E hoje, ela é uma TV de
qualidade?
Marcelo – Não. Enquanto no programa da
Adriane Galisteu a gente colocava matérias
sobre trilhas publicitárias e dava um ponto,
na Bandeirantes o Luciano Huck dava cinco
pontos com o Exaltasamba. O programa não
agüentou e a Galisteu falou “Vamos chamar o
Exaltasamba”. Ela tinha razão. Aí eu saí,
dizendo: “Não vou ficar aqui pra exaltar o
samba de ninguém”.
IMPRENSA – Você trabalhou muito tempo
cobrindo cultura na "Ilustrada". Como avalia
os cadernos culturais?
Marcelo – As redações estão cada vez
mais enxutas. Acabou o repórter especial,
aquele cara que poderia dar um diferencial.
Acho importante o repórter receber o
release, mostrar o que está acontecendo na
São Paulo Fashion Week, os lançamentos da
semana, as peças e os filmes que vão
estrear. Agora, a reportagem cultural não
existe mais por causa do enxugamento das
redações. Ficaram os burocratas e mandaram
embora o chantilly, o tempero.

"O prefeito que mais
fez pelos deficientes físicos na cidade de
São Paulo foi o Paulo Maluf"
IMPRENSA – Faltam reportagens nos
cadernos culturais?
Marcelo – Sem dúvida. Não tem gente
fazendo reportagem sobre os custos dos
filmes, os orçamentos. Ninguém fala sobre
como esses orçamentos são feitos. Como é lá
dentro do Ministério da Cultura? A gente
sabe que o governo petista é muito
rancoroso, vingativo. A gente sabe que todo
mundo que critica o PT fica numa lista
negra. Isso é falado no meio cultural
brasileiro, mas nenhum repórter coloca no
papel.
IMPRENSA – Por que você não coloca no
papel?
Marcelo - Eu não posso colocar isso no
papel porque tenho projetos. Eu falei mal do
presidente do BNDES, quando era o Guido
Mantega. Escrevi sobre o empréstimo que o
BNDES não estava dando ao metrô de São
Paulo. Fiz uma brincadeira e o chamei de
"Burocrata Manteiga". Resultado: tive um
filme no BNDES que não ganhou o patrocínio.
A gente sabe que a administração cultural
petista é vingativa.
IMPRENSA - O Gil também é vingativo?
Marcelo - O Gil, não. Pelo contrário.
Ele é um humanista. Mas a gente sabe que o
Orlando Senna, o Sérgio de Sá Leitão, o
pessoal do BNDES e da Petrobras são
vingativos. Só que ninguém fala sobre isso
porque não existem repórteres culturais nas
redações.
IMPRENSA - Você era um petista roxo nos
anos 80. Chegou a dizer no Feliz Ano Velho,
que diria para os seus filhos: “Tá vendo? Eu
sabia que isso ia dar certo”. Você ainda é
petista?
Marcelo - Já faz tempo que não sou, uns
10 anos. Aliás, nunca fui filiado ao PT.
Sempre fui um simpatizante. Sou filiado
mesmo ao PV.
IMPRENSA - Como começou seu desencanto
com o PT?
Marcelo - Não sei exatamente. A política
cultural do PT é sempre muito fraca, de
apadrinhamento. Isso me afastou do partido,
me deixou revoltado. Desde a época da
Erundina ando bem desencantado. Sempre achei
a direita muito mais comprometida com
questões dos deficientes físicos do que a
esquerda. O prefeito que mais fez pelos
deficientes na cidade de São Paulo foi o
Paulo Maluf. E as que menos fizeram foram a
Erundina e a Marta. O PT sempre foi muito
ausente em relação às questões dos
deficientes físicos e muito medíocre em
relação à cultura.
IMPRENSA - Se não fosse Feliz Ano
velho e o acidente, você seria um
engenheiro agrônomo hoje?
Marcelo - Não sei. Também me faço essa
pergunta. Sei que fui muito ligado ao
teatro, mas era mau ator, tinha consciência
disso. Fui muito ligado à música, mas sabia
que não era um Renato Russo. Então eu não
era bom em nada. Jogador de futebol eu não
ia ser mesmo, nem surfista profissional.
(risos) O acidente me ajudou a escrever, foi
o motivo que me fez ser publicado, que me
fez aceitar.
IMPRENSA - Por que você trocou a Folha,
que sempre foi seu jornal xodó, pelo Estadão?
Marcelo – O Estadão era o jornal que os
pais liam. Os filhos queriam começar a ler a
Folha, porque tinha o caderno cultural.
Ambos hoje têm qualidades e defeitos. Eu
estava infeliz na Folha porque queria voltar
a ser colunista. Estava cansado de fazer
reportagem. Não tinha mais como parar para
escrever um livro. O trabalho de repórter é
24 horas por dia. O dia inteiro esperando a
fonte ligar, o fechamento. Não dá para ser
romancista e repórter. Ou eu parava de
escrever ou virava um free-lancer e voltava
a escrever.
IMPRENSA - Você hoje prefere o Estadão
como leitor?
Marcelo – Prefiro. O Estadão ainda tem
textos mais densos do que a Folha, que faz
os textos curtos, telegrafados. Não estou
nem falando como profissional, mas como
leitor observador da imprensa. Na Folha, os
parágrafos têm de ter seis linhas. Pelo
menos quando eu trabalhava lá isso era muito
rigoroso. Não entendo o porquê disso. Vem do
jornalismo americano...Como escritor,
prefiro trabalhar no Estadão porque ele dá
liberdade. O Manual de Redação deles não é
tão rígido quanto o da Folha.
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