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Meu diploma não vale nada

 

Meu diploma não vale nada

 

Marcelo Rubens Paiva: “Meu diploma não vale nada”

Por Pedro Venceslau e Raquel Paulino
Fotos: Raquel Paulino

 

 

Quando lançou Feliz Ano Velho, no começo dos anos 80, o estudante de engenharia agrícola Marcelo Rubens Paiva não tinha grandes pretensões literárias. Aos 20 anos de idade, tudo que ele queria era transformar em livro o diário que escreveu nos meses seguintes ao acidente que o deixou paraplégico. “Eu era um menino”, conta. O livro se transformou em best seller internacional e Marcelo em celebridade instantânea. 27 anos se passaram desde seu primeiro livro. Marcelo amadureceu, cursou Comunicação Social, escreveu peças de teatro, produziu e apresentou programas de TV, foi editor e repórter de cultura, escreveu outros seis livros e decidiu pendurar seu diploma de jornalista no banheiro. “Esse diploma não vale nada. O jornalismo perdeu o rumo, saiu do trilho”, explica.

Para poder retomar sua atividade preferida, a de escritor, Paiva teve de abandonar a reportagem cultural diária da Folha de S. Paulo em 2003 e se tornar um jornalista free-lancer. Valeu a pena. Sem as amarras do fechamento conseguiu tempo para lançar dois novos livros - Malu de Bicicleta, naquele mesmo ano, e o mais recente, O Homem que Conhecia as Mulheres, da Editora Objetiva, que acaba de relançar todos os seus livros. Além de uma nova peça de teatro, a décima. No Retrovisor está em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Carlos Gomes. Aos sábados, Marcelo assina uma coluna no Estadão, no espaço que era de Rachel de Queiroz. “Acho que tenho uma alma feminina”, diverte-se. Nesta entrevista para Imprensa, Paiva conta por que pendurou o diploma de Comunicação Social no banheiro, opina sobre o jornalismo na televisão e nos jornais e conta as razões que o levaram a se desencantar com o PT.

 

 


"Algumas dúvidas existenciais de Feliz Ano Velho hoje em dia me parecem ridículas"

 

IMPRENSA - Recentemente, você declarou que não gosta mais do livro Feliz Ano Velho, que o projetou. O que aconteceu?
Marcelo Rubens Paiva -
Mudei meu estilo literário, cresci, amadureci. Algumas dúvidas existenciais de Feliz ano Velho, hoje em dia, parecem ridículas. Eu era um menino. Meu quarto não é mais o quarto de quando eu tinha 20 anos. Não tem mais pôster do Led Zeppelin, carrinho matchbox, livros beats. Meu quarto hoje tem um quadro bonito. Com o Feliz Ano Velho é isso: eu cresci, mas aquele quarto continua igual. Isso é meio aflitivo.

 


Pendurado sobre a privada, o diploma de Comunicação Social, curso que Paiva concluiu em 1988. O canudo foi retirado em 1994.

IMPRENSA - Notamos que seu diploma de Comunicação Social está pendurado na parede do banheiro. Por que você o colocou lá?
Marcelo -
Porque meu diploma não vale nada. Pra que eu fiz faculdade de Rádio e TV, de Jornalismo? Pra nada. Hoje em dia, o jornalismo perdeu o rumo, saiu completamente do trilho. O jornalismo, hoje, é um "Estado independente". Isso é um pouco resultado de anos de ditadura, de controle das famílias poderosas, que sempre têm ligações muito promíscuas com o Estado. Um país tão traumatizado pela censura, pela violência, pelo cerceamento da liberdade de expressão, não consegue montar um controle ético da mídia. Não consegue evitar que o Datena fale os absurdos que fala.

IMPRENSA – Você, que trabalhou muito tempo na TV Cultura, defende que a emissora tenha comerciais, como os das Casas Bahia?
Marcelo -
Sempre defendi isso. O problema da TV Cultura é a forte ligação com o governo: na época do Maluf eram malufistas, na época do PSDB eram tucanos. Com comerciais, dá pra ter mais liberdade.

IMPRENSA - Qual foi a diferença entre trabalhar na TV Cultura (onde foi apresentador dos programas "Leitura Livre" e "Fanzine") e na Rede TV! (onde foi chefe de redação do canal e do programa "Super Pop", com Adriane Galisteu)?
Marcelo -
A Cultura é aquilo que a gente sonha em TV: em primeiro lugar vem o compromisso ético, e depois a audiência. A gente queria que desse audiência, lógico. Mas não forçava a barra. Eu, por exemplo, não chamava o É o Tchan, chamava o Mangue Beat. A gente estava mais preocupado com as questões culturais. Já a Rede TV!, não pensava assim. Quando ela começou, queria ser uma TV Manchete mais qualificada. A idéia era ser uma televisão de qualidade.

IMPRENSA – E hoje, ela é uma TV de qualidade?
Marcelo –
Não. Enquanto no programa da Adriane Galisteu a gente colocava matérias sobre trilhas publicitárias e dava um ponto, na Bandeirantes o Luciano Huck dava cinco pontos com o Exaltasamba. O programa não agüentou e a Galisteu falou “Vamos chamar o Exaltasamba”. Ela tinha razão. Aí eu saí, dizendo: “Não vou ficar aqui pra exaltar o samba de ninguém”.

IMPRENSA – Você trabalhou muito tempo cobrindo cultura na "Ilustrada". Como avalia os cadernos culturais?
Marcelo –
As redações estão cada vez mais enxutas. Acabou o repórter especial, aquele cara que poderia dar um diferencial. Acho importante o repórter receber o release, mostrar o que está acontecendo na São Paulo Fashion Week, os lançamentos da semana, as peças e os filmes que vão estrear. Agora, a reportagem cultural não existe mais por causa do enxugamento das redações. Ficaram os burocratas e mandaram embora o chantilly, o tempero.

 


"O prefeito que mais fez pelos deficientes físicos na cidade de São Paulo foi o Paulo Maluf"

IMPRENSA – Faltam reportagens nos cadernos culturais?
Marcelo –
Sem dúvida. Não tem gente fazendo reportagem sobre os custos dos filmes, os orçamentos. Ninguém fala sobre como esses orçamentos são feitos. Como é lá dentro do Ministério da Cultura? A gente sabe que o governo petista é muito rancoroso, vingativo. A gente sabe que todo mundo que critica o PT fica numa lista negra. Isso é falado no meio cultural brasileiro, mas nenhum repórter coloca no papel.

IMPRENSA – Por que você não coloca no papel?
Marcelo -
Eu não posso colocar isso no papel porque tenho projetos. Eu falei mal do presidente do BNDES, quando era o Guido Mantega. Escrevi sobre o empréstimo que o BNDES não estava dando ao metrô de São Paulo. Fiz uma brincadeira e o chamei de "Burocrata Manteiga". Resultado: tive um filme no BNDES que não ganhou o patrocínio. A gente sabe que a administração cultural petista é vingativa.

IMPRENSA - O Gil também é vingativo?
Marcelo -
O Gil, não. Pelo contrário. Ele é um humanista. Mas a gente sabe que o Orlando Senna, o Sérgio de Sá Leitão, o pessoal do BNDES e da Petrobras são vingativos. Só que ninguém fala sobre isso porque não existem repórteres culturais nas redações.

IMPRENSA - Você era um petista roxo nos anos 80. Chegou a dizer no Feliz Ano Velho, que diria para os seus filhos: “Tá vendo? Eu sabia que isso ia dar certo”. Você ainda é petista?
Marcelo -
Já faz tempo que não sou, uns 10 anos. Aliás, nunca fui filiado ao PT. Sempre fui um simpatizante. Sou filiado mesmo ao PV.

IMPRENSA - Como começou seu desencanto com o PT?
Marcelo -
Não sei exatamente. A política cultural do PT é sempre muito fraca, de apadrinhamento. Isso me afastou do partido, me deixou revoltado. Desde a época da Erundina ando bem desencantado. Sempre achei a direita muito mais comprometida com questões dos deficientes físicos do que a esquerda. O prefeito que mais fez pelos deficientes na cidade de São Paulo foi o Paulo Maluf. E as que menos fizeram foram a Erundina e a Marta. O PT sempre foi muito ausente em relação às questões dos deficientes físicos e muito medío­cre em relação à cultura.

IMPRENSA - Se não fosse Feliz Ano velho e o acidente, você seria um engenheiro agrônomo hoje?
Marcelo -
Não sei. Também me faço essa pergunta. Sei que fui muito ligado ao teatro, mas era mau ator, tinha consciência disso. Fui muito ligado à música, mas sabia que não era um Renato Russo. Então eu não era bom em nada. Jogador de futebol eu não ia ser mesmo, nem surfista profissional. (risos) O acidente me ajudou a escrever, foi o motivo que me fez ser publicado, que me fez aceitar.

IMPRENSA - Por que você trocou a Folha, que sempre foi seu jornal xodó, pelo Estadão?
Marcelo –
O Estadão era o jornal que os pais liam. Os filhos queriam começar a ler a Folha, porque tinha o caderno cultural. Ambos hoje têm qualidades e defeitos. Eu estava infeliz na Folha porque queria voltar a ser colunista. Estava cansado de fazer reportagem. Não tinha mais como parar para escrever um livro. O trabalho de repórter é 24 horas por dia. O dia inteiro esperando a fonte ligar, o fechamento. Não dá para ser romancista e repórter. Ou eu parava de escrever ou virava um free-lancer e voltava a escrever.

IMPRENSA - Você hoje prefere o Estadão como leitor?
Marcelo –
Prefiro. O Estadão ainda tem textos mais densos do que a Folha, que faz os textos curtos, telegrafados. Não estou nem falando como profissional, mas como leitor observador da imprensa. Na Folha, os parágrafos têm de ter seis linhas. Pelo menos quando eu trabalhava lá isso era muito rigoroso. Não entendo o porquê disso. Vem do jornalismo americano...Como escritor, prefiro trabalhar no Estadão porque ele dá liberdade. O Manual de Redação deles não é tão rígido quanto o da Folha.


 

Fonte: Revista Imprensa
Edição número 215, de agosto de 2006

 

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