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Screencaps - Juca Kfouri Entrevista, 10/05/07

 

Juca Kfouri Entrevista - ESPN, 10 de maio de 2007

 

 
 

 

Entrevista do Marcelo no programa Juca Entrevista, com Juca Kfouri

 

Convenção:

JK = Juca Kfouri

MRP = Marcelo Rubens Paiva

 

JK: Olá, eu sou Juca Kfouri e vou conversar hoje com Marcelo Rubens Paiva. [Para o Marcelo:] Quem é Marcelo Rubens Paiva?

MRP: [Ri:] Puxa, se eu soubesse, eu não estava aqui. Eu estava... eu tava me divertindo por aí adoidado. Não, brincadeira. Eu... eu sou escritor, nasci em 1959, em São Paulo, no bairro da... da... Morei na... na... A minha primeira casa foi na Alameda Tietê... filho de um engenheiro e de uma advogada... e, em 64, mudei para o Rio de Janeiro... e virei torcedor do Flamengo. Em 71, me mudei pra Santos e, pra irritar os meus primos santistas, eu virei corinthiano, pensando que, por ser flamenguista, eu era... eu tinha que torcer pelo time da massa da torcida de São Paulo. E, em 77, eu virei mais corinthiano ainda porque eu estava no estádio num dia em que... talvez num dos mais importantes dias da história do time... que foi quando o Basílio fez aquele gol 1 a 0 contra a Ponte Preta e recuperou um troféu do Campeonato Paulista, que não ganhava há vinte e tantos anos. E acompanhei depois, o Corinthians... [Ri:] Não sei, a gente já tá falando de futebol...? Parece que a gente se...
  
JK: Não sei, não perguntei nada... 

MRP: A gente se deixou levar pelo futebol, né?
 
JK: É, eu não perguntei nada, mas tô achando isso interessantíssimo... 

MRP: É... E, aí... e acompanhei o Corinthians na... na grande... na que eu acho que é uma das mais bonitas fases do Corinthians, que foi na época da democracia corinthiana. Não só do aspecto ético, que envolvia todo o time, a direção do clube, como até do próprio futebol jogado, que era um futebol lindíssimo, né?, um futebol de arte... com Sócrates, Vladimir, Zé Maria... e muitos outros... Casagrande... [Sorri, em tom de provocação:] E, hoje em dia, infelizmente, eu acho que eu estou voltando a ser mais Flamengo do que Corínthians porque o Flamengo tá conseguindo, né?, sair das cinzas enquanto que o Corínthians está se afundando cada vez mais...  

JK: [Para a câmera:] Faltou dizer, entre tantas coisas, que este engenheiro, pai do Marcelo, era deputado, deputado Rubens Paiva, foi morto, pela ditadura militar, jogado de um avião, na selva, e essa mãe advogada, [para obter confirmação do Marcelo:] Dra. Eunice...?
 
MRP: Dra. Eunice.  

JK: É... é, assim, um exemplo de bravura, de mulher que lutou até a última trincheira para que houvesse o reconhecimento do assassinato do deputado Rubens Paiva. 

MRP: É verdade. 

JK: É, mas... vamos de falar de coisas bem mais felizes e agradáveis. Se é que é feliz e agradável lembrar que nessa semana, então, que a sua parte Flamengo deve estar preponderando, até porque o fato de você não ter escolhido o Santos dos seus primos pode te causar algum dissabor nessa semana... do Santos bi campeão paulista. 

MRP: É verdade. Nos últimos anos, inclusive. 

JK: Exatamente. Não é? 

MRP: É verdade. Hoje em dia... mas é certo que eu... que eu... eu acho que todo paulistano tem um carinho pelo Santos tão grande que hoje, por exemplo... aliás, ontem, quando o Santos ganhou do... ontem... 

JK: Ontem! 

MRP: Quando o Santos ganhou do São Caetano e, depois quando veio aquele hino... que é um hino bastante engraçado... um hino bem diferente... [Cantando:] "Santos, Santos... gooool!"... É um hino meio... meio infantil, até, né? E eu comecei a chorar, de emoção, de me lembrar de Santos, dos meus primos, de todo... de tudo que os santistas, né...?, eles... eles... que, como os corinthianos, eles também passaram um tempo de... né?... da famosa era, da pós era Pelé, de sofrimento... de um time quase que, né?, não vinha jogar mais em São Paulo... e que, agora, milagrosamente... que, você vê como é o futebol... é a coisa mais simples do mundo. Quando você tem uma boa administração, o time, né?, o time deslancha. Que é o que aconteceu com o Flamengo também que, agora, depois de passar por uma catástrofe, uma tragédia, conseguiu, né?, mais ou menos, bem ou mal, se reconstruir... ganhar a Copa do Brasil, a Libertadores... o time não é ruim... e lotando o Maracanã e ganhando o campeonato carioca, né? Então, eu acho que... eu acho que eu fiquei emocionado, até quase... até chorei, por lembrar a minha infância e por ficar feliz pelos santistas. Porque eu acho que, apesar... 

JK: Você é chorão? 

MRP: Eu sou chorão.  

JK: É? 

MRP: Eu sou. Sou. No futebol, bastante, até. 

JK: E no cinema, é desses, assim, que chora...? 

MRP: [Confirmando:] No cinema. 

JK: No cinema, tá. 

MRP: Choro até em comercial bonito... [Ri:] Choro até em reportagem de telejornal piegas... 

JK: Sei, sei... não pode ver um Love Story

MRP: Não! Choro, acho bonito... eu gosto.
 
JK: Marcelo, a gente tava aqui fazendo as contas, antes de começar o programa, você tem oito livros publicados a partir do Feliz Ano Velho, que foi o primeiro. Né? Quando você era um menino de...? Vinte anos...? 

MRP: Vinte e três. 

JK: Vinte e três anos? 

MRP: É, vinte e três.  

JK: Que é o livro que lança, né?, o Marcelo, nesta vida de escritor bem sucedido. Depois, peças de teatro, se eu não tô enganado, você tem sete, entre coisa sua e peças que você adaptou... 

MRP: É. [Pensando:] Peças de teatro, eu acho que eu tenho... eu não sei... eu não sei muito bem a conta...  

JK: Tá... 
MRP: Porque tem umas inéditas, tem umas que estrearam no Rio mas não vieram pra São Paulo, é meio... é meio confuso... 

JK: Tá... 

MRP: ... contabilizar... 

JK: Tá, tá... Agora, você nunca escreveu nada tendo o futebol como tema.  

MRP: Nunca. 

JK: Pensa nisso ou não? 

MRP: Penso.  

JK: É? 

MRP: Penso.
 
JK: O que seria, assim?  

MRP: Eu tive uma idéia de um time do interior. Porque, quando eu morei em Santos, foi de 71 a 74... Bom, quem é que treinava na Vila Belmiro de 71 a 74? Era Pelé, Clodoaldo... era um time... a gente... entendeu? Não tinha dimensão do que era aquilo que tava acontecendo naquele momento, naquele espaço. E a minha escola era ao lado do... era entre a Vila Belmiro e o campo da Portuguesa Santista. Então, assim, o futebol, pra uma cidade do interior, ele mobiliza muito mais até do que o futebol pra uma cidade grande. Porque você vai no treino, você vê o cara na padaria, você, né?, conversa direto, e a cidade inteira se mobiliza prum jogo, né? Então, ao mesmo tempo que assistia muito aos treinos do Santos, eu ia ver muito os jogos da Portuguesa Santista... e é um time divertidíssimo, porque tem uma torcida de... sei lá... três pessoas... 

JK: É... 

MRP: Mas, o resto, é de povo de Santos, que vai ver o jogo, lá... como quem vai ver uma peça de teatro, vai ver um jogo de futebol. E eu tinha muito a vontade de escrever a história de um time pequeno, legal, entendeu? E eu me lembro muito bem de uma vez... em que a Portuguesa Santista contratou o Antenor, que era um ponteiro direito que... o grande currículo dele era que ele tinha jogado no Santos durante alguns meses, com o Pelé... e, assim, o estádio lotou pra ver a estréia desse Antenor, entendeu? E não é que o cara... dão a bola pra ele, ele pisa na bola, destronca o tornozelo, e sai contundido e nunca mais aparece...? 

JK: Acabou o lateral.

MRP: Então, essas coisas é que são interessantes de se contar no futebol. Mas, assim, por outro lado, os escritores têm muito receio... 

JK: É verdade...
 
MRP: Né?, de... Nenhum escritor se aventurou muito, né? Porque eu acho que a paixão... é maior, né?, do que... do que... 

JK: [Interrompendo:] O Alberto Nena Júnior diz que são raras as grandes obras de arte sobre o futebol no Brasil porque o futebol brasileiro é tão artístico que é difícil uma obra de arte reproduzir. Mas seja como for, fica aí o desafio, pro teatrólogo Marcelo Rubens Paiva porque há uma peça fantástica, dos anos cinqüenta... se não for cinqüenta, é anos sessenta... talvez, anos sessenta... É o Chapetuba Futebol Clube, do Oduvaldo Viana Filho, que é exatamente uma peça sobre um clube pequeno, um clube do interior. Nós vamos fazer a nossa primeira pausa. Voltaremos em seguida com Marcelo Rubens Paiva. Até já.  

[PAUSA.] 

JK: [Para a câmera:] Estou conversando com o escritor, com o teatrólogo, com o jornalista Marcelo Rubens Paiva, que aliás tem uma coluna semanal no Estado de São Paulo. Na última coluna do Marcelo, ele escreveu sobre o Peneco...
 
[Marcelo ri.]  

JK: Seja isso o que for, e ele vai explicar... Que é uma apropriação que ele fez, de uma sigla, né? [Achando graça curiosa:] Sigla dos o quê...?  


MRP: Pequenas... 

JK: Pequenas Neuroses...? 

MRP: Pequenas Neuroses Contemporâneas.  

JK: Pequenas Neuroses Contemporâneas.  

MRP: É. 

JK: PNC. E ele achou melhor trata-las como Peneco e disse que, entre as pequenas neuroses contemporâneas dele, está a mania de fazer listas. As mais variadas. Desde como você trata o menino de rua que vem te pedir esmola, no automóvel, até outras situações do cotidiano. Nessa sua mania de fazer listas, Marcelo, tem uma lista dos grandes times que você viu?
 
MRP: Tem. 

JK: Dos grandes jogadores inesquecíveis pra você? 

MRP: Tem. 

JK: Tem?
  
MRP: Tem. 

JK: Assim, na ponta da língua? Ou não? 

MRP: Na ponta da língua, tem.  

JK: Tem? 

MRP: Você quer o quê? Uma seleção? Ou você quer...? 

JK: Uma seleção primeiro.  

MRP: De futebol? 

JK: De futebol. 

MRP: De todos os tempos? 

JK: De futebol de todos os tempos.  

MRP: Internacional ou brasileira? 

JK: Começa pela brasileira. 

MRP: Bom, goleiro, Tafarel... eu acho que o Leão, também... 

JK: Tá... 

MRP: É... Carlos... lateral direito, Zé Maria... Cafu... é... não vi Nilton Santos jogar... zagueiro, Oscar com o Juninho... com o Marinho... lateral esquerdo, o Júnior... o Roberto Carlos até estava na lista até o último episódio, também... 

JK: [Ri:] Você tirou ele da lista...?  

MRP: Número cinco, Clodoaldo...  

JK: É... 

MRP: Bom, eu vou colocar muita seleção dos anos setenta, que foi a primeira seleção que me fez, né?, gostar de futebol... É... meio campo... armação, Zico, o Pelé... ataque, Jairzinho... é... Romário e Paulo César Caju...  

JK: Maravilha. 

MRP: ... que era o meu... ou o Rivelino.  

JK: Setenta, você diz. Foi aí que você diz que você se apaixonou pelo futebol. Nunca pintou em você, Marcelo, a confusão entre o Brasil e a ditadura militar, que matou o seu pai?
 
MRP: Muito...  

JK: Ah. 

MRP: É... o meu pai tava vivo aí.  

JK: Sim. 

MRP: O meu pai morreu em 71.  

JK: Sim. 

MRP: Nós acompanhamos a Copa de 70 e eu lembro que, mesmo... apesar dele ser um homem contra o regime militar, ele torcia pelo Brasil.  

JK: Claro. 

MRP: Eu acho que... eu me lembro por exemplo que, na minha casa, eu coloquei bandeirinhas do Brasil na janela e a minha irmã mais velha, a Veroca, que era a mais consciente politicamente, era a mais velha, ela ficou revoltada, me acusando de estar defendendo o regime. E eu achei aquilo um absurdo, eu tinha onze anos de idade...! Eu tô defendendo o Clodoaldo! Eu não tô pensando no regime! E... m-mas havia essa... esse, né?, conflito. Mas eu acho que eu duvido que tenha um brasileiro que não tenha torcido pelo Brasil. Eu não conheço. Você conhece algum? 

JK: Não. 

MRP: Mesmo os mais guerrilheiros, mesmo os mais... né?... ferozes... que, combatentes da ditadura... não torciam contra. Porque... porque o Brasil era muito superior àquela mediocridade toda. O Brasil era... era... aquele futebol era tão bonito, né? Era tão bem jogado, um time tão raçudo, tão bem preparado... é... só ganhava de goleada... Era um time que... ele saiu do Brasil já desacreditado, mas ele se imantou de um jeito que foi uma empatia fantástica e que são até hoje os grandes intelectuais do esporte. Se você pegar, por exemplo, a maioria dos comentaristas ex-jogadores, é dessa época aí, o Rivelino, o Gérson... o Tostão... 

JK: Sim. 

MRP: ... se tornou um grande... 

JK: Sim. 

MRP: ... colunista, né...? 

JK: Sim, sim.  

MRP: O Pelé, que é um filósofo do futebol... e eu acho... Por exemplo, uma vez, quando a IstoÉ fez uma lista... fez uma votação, do maior brasileiro do século, eu votei no Pelé.  

JK: Mmhmm. 

MRP: Por ser negro, por ter, né...? E por ser, eu acho que o símbolo do Brasil durante o século passado. 

JK: Olha, eu acho que aí... 

MRP: Inevitavelmente.  

JK: Aí... 

MRP: Ou o Pelé ou o Tom Jobim. Um dos dois.

JK: É, eu tô de acordo com você. Eu ficaria entre os dois também, e... mas acho que o Pelé... a imagem do Brasil se confunde com o Pelé. Outro dia, foi feita uma eleição mais séria, né? Ganhou o Getúlio Vargas. E eu acho até graça, também. Porque, sem dúvida nenhuma, o brasileiro mais conhecido da história de quinhentos e tantos anos do Brasil é o Pelé e o grande embaixador do Brasil, né?... 

MRP: E eu acho que... 

JK: [Continuando o raciocínio:] ... é o Pelé.  

MRP: ... é o cara que levou o nome do Brasil pro resto do mundo... 

JK: Sem dúvida. 

MRP: ... essa é uma coisa importantíssima. 

JK: Sem dúvida.

MRP: Que fez o Brasil ser o... um país reconhecido.  

JK: Nunca aconteceu de eu ir num país estrangeiro e eu falar, sou brasileiro, e alguém falar assim... Getúlio Vargas?  

[Risos.] 

JK: Com o Pelé, já aconteceu um milhão de vezes, né? Agora, e tem uma outra coisa, né, Marcelo? Permitir a confusão entre o país e a ditadura era permitir uma usurpação até dos nossos sentimentos, né?
 

MRP: É verdade. 

JK: Já tinham nos usurpado a liberdade... 

MRP: Exatamente. 

JK: Iam nos usurpar também...? Ia permitir isso?

MRP: É... 

JK: Aquilo que a gente tem de mais íntimo? 

MRP: É... exatamente. E interessante porque era uma época no futebol, ô Juca, que você... você sabe melhor do que eu, que o futebol era jogado com mais romantismo... 

JK: Sem dúvida. 

MRP: ... com mais paixão do que com... do que com dinheiro, né? Quer dizer, esses caras... eles não... não sei se eles não faziam questão do dinheiro, mas eles faziam muito mais questão da sua... da sua paixão pelo Santos, por exemplo. O Pelé não saiu... o Pelé, ele não saía do Santos, né? Ele só saiu do Santos depois que ele se aposentou. E, depois, durante muitos anos, e ele já um homem rico... e eu lembro que, em Santos, o Pelé era considerado o homem mais rico da cidade... [Divaga:] Não é, né?, evidentemente... mas, na fantasia da população, era... e que tinha a maior casa... tinha uma casa enorme ali, na Ponta da Praia... Mas, antes dessa casa, o Pelé morou, durante muitos anos, na pensão com os outros jogadores do Santos.  

JK: Isso. 

MRP: E isso, no documentário do Márcio Henrique, tá muito claro. Quer dizer, hoje em dia, você vê, entendeu?, esses caras, entendeu?, jogam seis meses no Corínthians e, aí, fazem um contratinho pra jogar na Casa do... na Casa do Chapéu por um pouco mais, sabe...? Tudo é, tudo é dinheiro, é tudo... uma... uma falta de paixão e de amor pela camisa, né? Você não vê um jogador mais no Brasil e que... e que mantém uma constância, num time, né? E que seja a identidade da torcida, como por exemplo o Rogério Ceni, um cara desses... O Rogério Ceni... 

JK: O Rogério Ceni é uma exceção, exemplo raro... 

MRP: O Edmundo... 

JK: ... uma avis rara, hoje.

MRP: O Edmundo, apesar de ter jogado em outros lugares, também tem esse... né?, esse sentimento de paixão pelo clube. O resto não tem. E é por isso que o Corínthians tá onde tá. Quer dizer, não... Aliás, eu acho que o Corínthians tinha que sofrer uma intervenção dos jogadores históricos do Corínthians. Eu sei que isso é impossível de acontecer no futebol brasileiro... 

JK: Ahã...

MRP: Mas, se juntar Zé Maria, Vladimir, até o Rivelino... apesar de depois ter ido pro Fluminense... é... o Casão, entendeu...? Pegar um time de jogadores que entendem de futebol, que possam ser bons dirigentes... como o Vladimir foi administrador do Pacaembu... e tomar o time, e organizar aquele time, eu acho que seria uma outra história, né? Não esse amadorismo que a gente vê hoje.  

JK: [Para a câmera:] Você sabe que, para conversar com o Juca Entrevista, basta entrar na página da ESPN... www.espn.com.br/jucaentrevista... Tem mais um bloco de conversa com Marcelo Rubens Paiva. Até já.

[PAUSA.] 

JK: [Para a câmera:] Estou conversando com o Marcelo Rubens Paiva que, entre outras coisas, está relançando... 


MRP: É verdade... 

JK: ... seus livros. Está relançando, pela Editora Objetiva, livros como este...  

[Juca mostra o Não És Tu, Brasil para a câmera.] 

MRP: Não És Tu, Brasil.

JK: Não És Tu, Brasil! Ou o... 

MRP: O Feliz Ano Velho... 

JK: ... Feliz Ano Velho, que é absolutamente... Bom, este... este já correu o mundo, né?
 
MRP: [Encabulado:] Já. 

JK: Já correu o mundo algumas vezes. Já deu algumas voltas ao mundo. 

MRP: Já.
  
JK: O Adeus Ano Ve... [Corrige-se:] O Feliz Ano Velho, que é uma maravilha.  

MRP: Este é o meu segundo livro, Blecaute

JK: [Mostrando o livro para a câmera:] E esse é o segundo livro, o Blecaute.  

MRP: Todos menores, agora, porque eu tirei muitas páginas. 

JK: Aí é que tá. Você não se limita a relança-los. Você reeditou-os.  

MRP: Reeditei. 

JK: Exatamente. 

MRP: Cortei. Cortei muita coisa. Porque... muita gordura... é... muita... [Rindo:] é ... muita filosofia barata...  

JK: Tá. 

MRP: Porque eu era muito jovem, e eu acho que... gostava de pensar da vida e tal... e, às vezes... às vezes, prejudicava até a própria narrativa. Aí, relendo os livros, eu falei, nossa!, isso aqui não precisa... isso aqui, pô!?... corta essa frase, e tal... E, aí, não sei se foi um ato de irresponsabilidade... porque, por exemplo, esse livro, Não És Tu, Brasil, ele tem algumas coisas... é... de pesquisa, que eu fiz, durante seis anos, que foram até citadas pelo Elio Gaspari, no livro dele...  

JK: Ahã. 

MRP: ... lá, da ditadura, e que... e que eu não sei se eu cortei ou não. Entendeu? Essas coisas que o Elio Gaspari fala que... eu lembro que eu consegui...

JK: É onde eu ia chegar...  

MRP: É. 

JK: Esse era o ponto. Quer dizer, eu imagino que você... É corajosa, essa sua atitude, porque você corre o seguinte risco. De alguém, que vai comprar, que vai reler, e vai dizer... mas e aquela frase?!, que é a frase da minha vida, que eu estabeleci como guia pros meus dias, não tem mais!? 

MRP: [Ri, encabulado:] É... não, mas as coisas importantes estão. Aliás, você vê que os livros são bem grossinhos, ainda.  

JK: Sim, são, são, são. Não se pode dizer que... 

MRP: As coisas importantes estão. 

JK: Não se pode dizer que... 

MRP: Eu eliminei muitos detalhes, como por exemplo, uma hora eu falo do avião Electra.  

JK: Tá. 

MRP: Ninguém mais se lembra que o avião Electra era o avião que fazia a ponte aérea... 

JK: A ponte aérea. 

MRP: ... entre Rio e São Paulo.  

JK: Belíssimo avião. 

MRP: Tem uma hora que fala... 

JK: Nunca caiu! 

MRP: É... nunca caiu.
 
JK: Isso. 

MRP: Mas foram substituídos. 

JK: Foram.  

MRP: Tem uma hora que fala em Boeing Presidencial. Já não é mais. É um Airbus. 

JK: Um Airbus! 

MRP: Tem uma hora que fala em... por exemplo... Chegou na minha casa e olhou o meu computador e falou... puxa!, você tem um PC...! Como se fosse um... um... um instrumento de altíssima tecnologia, quando hoje todo mundo tem computador em cada esquina, né? Mas, na época em que eu escrevi um livro, ter um computador... e eu fui um dos primeiros a ter um computador aqui, na... entre a turma... era uma grande novidade. Os meus amigos vinham em casa pra ver o meu computador, né? Então, são esses ajustes que foram feitos. Mas eu... a alma e a base... tá... ainda tá aí.  

JK: [Concordando:] Lógico, tem que estar. Eu tenho certeza disso. Bom, falávamos de listas. Qual é o grande, o maior time que você viu jogar?  

MRP: Copa de 70. 

JK: Seleção Brasileira de 70? 

MRP: De 70.   

JK: E times de clube? 

MRP: Puxa, vários... o do Zico, né?  

JK: Ah. 

MRP: Zico, Carpegiani...  

JK: Flamengo de 81. 

MRP: ... Júnior, Atílio, aquele tinha timaço... O Inter, do Falcão...  

JK: De 76. 

MRP: É... o São Paulo do Raí... o São Paulo do Telê, né? 

JK: É. 

MRP: Do Raí, do Telê...  

JK: Tá... 
MRP: O Corínthians do Casão... e do Sócrates... era um belíssimo time. O Corínthians... por incrível que pareça... o Corínthians do Parreira era um bom time... 

JK: Ah... 

MRP: O Palmeiras do... do Parreira... [Corrige-se:] Do Parreira não, do Luxemburgo, né? 

JK: Aquele time que foi campeão paulista... é... quase invicto... só perdeu pro Guarani... 

MRP: Tinha um time que tinha assim... era Cafu, Rivaldo... 

JK: Rivaldo...! 

MRP: Era Roberto Carlos... era uma loucura, aquele time... 

JK: Era um timão.  

MRP: Um absurdo. 

JK: Um timaço. Aquele time, você sabe que é o time que eu digo, assim, que teve durante dois meses, que foi o time que eu vi, que mais se aproximou da perfeição do Santos do Pelé. 

MRP: É. Mas teve... tem um outro time que a gente não tá falando, hein? Que é o Santos do Robinho.
 
JK: Esse Santos de 2002? 

MRP: É... Elano, Robinho... 

JK: Robinho, Elano, Renato, Diego...  

MRP: Esse era um timaço. 

JK: [Concordando:] Era um timaço. Era um timaço. O [?], pelo Emerson Leão...

MRP: É verdade, o Emerson Leão. O Emerson, que é um grande técnico, e que eu achei um absurdo ter saído do Corínthians.
 
JK: É? 

MRP: Eu achei que foi um erro.  

JK: Ahã...  

MRP: Eu defendi a permanência do Leão. Eu acho que não tem que sair o Leão, tem que sair é o time. Tem que sair é... os dirigentes é que têm que ir embora e não o Leão, que era o cara que tava querendo acertar aquilo lá, né? Mas a torcida do Corínthians, ela tá deturpando a...  

JK: Se há um traço teu, Marcelo, é o da franqueza, da sinceridade que, até, algumas pessoas consideram crueza, né? 

MRP: É. 

JK: Que é um estilo teu, né?

MRP: Falar o que... falar o que pensa.

JK: É, falar o que pensa. Dia desses, o Dan Stulbach recusou um convite do Dualib para conhecer o Memorial do Corínthians... 

MRP: [Ri:] Certo... 

JK: ... dizendo que o único convite que ele aceita é para a da data da renúncia do Dualib. E que ele não quer ir ao Memorial do Corínthians porque ouviu dizer que o Memorial é lindo, mas que o Memorial vai lembra-lo de tempos de uma grandeza que o Corínthians não tem mais.  

MRP: É...

JK: Você acha essa uma atitude, como algumas pessoas acharam, de uma pessoa mal educada, porque recusou um convite? 

MRP: Não...! Não, nem um pouco! Esse homem tá destruindo o Corínthians, tá destruindo uma história! É o símbolo do time do Brasil. O que tá acontecendo no Corínthians é a catástrofe. Eu acho que nem um pouco. E é engraçado porque, por exemplo, Juca, eu via jogo no estádio ao lado das Gaviões... dos Gaviões da Fiel... eu era... eles me carregavam até lá em cima... me defendiam... eu era amigo... O meu enfermeiro particular era o... da época, era o repiriqueiro da Fiel, o saudoso Neguinho... o Edsinho, como eles chamavam... e, hoje em dia, quer dizer, eu comecei a voltar a ser mais flamenguista do que corinthiano no episódio do Edílson... 

JK: Ah, tá... 

MRP: Que o... que o Corínthians tinha ganho o campeonato mundial, tinha ganho o brasileiro, tava voando em campo, perdeu um paulista porque tavam cansados... perderam um paulista, entendeu? E a torcida foi lá e invadiu, e ped... exigiu a renúncia.  

JK: E a saída do time... 

MRP: E a saída do time e o Edílson foi embora. Ali, eu vi que a torcida começou a atrapalhar mais do que a ajudar. E, ultimamente, a torcida do Corínthians tem atrapalhado muito mais do que ajudado. Tá difícil de um jogador jogar no Corínthians. Eu entendo a tensão que existe lá dentro. Porque você perde e vai apanhar. É uma coisa que não se pensa no futebol moderno, esse tipo de reação. E a torcida corinthiana, ao invés de, por exemplo, bater em jogador, ameaçar, ao invés de pedir a saída do Leão, deveria ir na casa do Dualib, deveria fazer protesto em frente da sede do clube. Contra a situação do time, que é um time que está abandonado, administrativamente falando. Um time que não tem dono, né? Um time que tem uma parceria que ninguém sabe quem é, de onde vem o dinheiro, que não entra mais dinheiro... Então, é... a própria torcida tá atrapalhando mais do que ajudando. Então, é isso que me deixa, sabe?, cada vez mais revoltado com o time que eu deveria estar torcendo fanaticamente, apaixonadamente... e tô desanimado. Eu e muitos corinthianos. E eu, também, jamais daria esse prestígio pra esse Dualib, também. Jamais iria no Memorial... 

JK: [Concordando:] ... a convite dele. É... esse desânimo, que você... 

MRP: Que também os palmeirenses tão vivendo uma coisa parecida, né?  

JK: É, só que eu acho que o Palmeiras tá com uma luz no fim do túnel, né?  

MRP: É... 

JK: Com o Beluzo, com o Cipullo...  

MRP: É... tem... 

JK: Tem uma coisa... que o Palmeiras tá querendo voltar pros trilhos.  

MRP: É... 

JK: O Corínthians, você não vê sinal disso. 

MRP: É... 

JK: Né?  

MRP: [Rindo:] O Washington Olivetto podia, né?, fazer... 

JK: [Rindo:] É... 

MRP: [Rindo:] Washington Olivetto pra presidente do Corínthians...! 

JK: O [?] também, né? O [?] seria um bom presidente, né? Já tentei convence-lo... Olha, seria, assim, um fecho de ouro pra uma carreira bem sucedida de empresário, né? E ele diz que não tem mais idade pra isso. E o Washington diz a mesma coisa, que é muito moço pra isso. Então, ficamos numa situação realmente desgraçada. Esse desencanto com o Corínthians, de alguma maneira, você sente também em relação ao futuro do Brasil ou não, Marcelo?  

MRP: Não... 

JK: Não? 

MRP: Não. Eu acho que o Brasil, ele tem umas coisas... é... difíceis de serem resolvidas, que é essa desigualdade social, que parece que só piora, né? Esse buraco entre... essa distância terrível entre ricos e pobres que só aumenta... as cidades cercadas cada vez mais por favelas, a violência aumentando, né...? Mas outras coisas têm melhorado bastante, assim... por exemplo... é... esse... essa prisão da máfia do Bingo, né?, essa é uma coisa que você fala, puxa!, finalmente, se prendeu um desembargador! Né?
 
JK: Tá... 

MRP: Infelizmente, sabe-se do Brasil que a corrupção, ela é histórica, mas nunca se viu, né?, uma política, uma cobrança da sociedade pra que isso seja encerrado. O caso dos postos de gasolina também... 

JK: Ahã... 

MRP: Quer dizer, foi fechado esse aqui da esquina... não esse da esquina, mais para baixo da ...., que todo mundo do bairro sabe que aquele posto vende gasolina adulterada, mas tava lá, funcionando há anos... 

JK: Ahã... 

MRP: Tá lá, agora, tá lacrado, né? Então, assim, algumas coisas estão, né?, acho que a sociedade não suporta mais esse tipo de desvio de conduta ética, né? Apesar da conduta ética ser cada vez mais rara em muitos setores públicos, né? E privados também. Mas, por outro lado, eu acho que o Brasil tá melhorando, viu? Algumas coisas, o Brasil tá melhorando muito. Eu vejo uma juventude muito mais informada, entendeu?, que acessa a internet e que... Eu vejo, por exemplo, uma juventude da periferia com muito mais consciência social do que aquele brasileiro pobre que, né?... que abaixava a cabeça... 

JK: Que abaixava a cabeça... que se conformava... 

MRP: É... 

JK: Sim, senhor... 

MRP: Sim, senhor... 

JK: Faremos tudo, faremos tudo...  

MRP: Exatamente.  

JK: [Para as câmeras:] Esse é Marcelo... 

MRP: [Interrompendo:] Tomara que isso se revele, né?, na democracia... 

JK: Tomara, tomara. [Para a câmera:] É bom, é bom ouvir quem não perde a esperança.  

[Marcelo ri.] 

JK: Já dizia Ivan Lins, desesperar jamais. Marcelo, muitíssimo obrigado. 

MRP: Obrigado...

JK: Infelizmente, o papo acabou. Sábado, a gente volta com Juca Entrevista. Até lá.
 
EM OFF
Marcelo Rubens Paiva, um exemplo de vida, uma cabeça iluminada, um brasileiro arretado.
 
**FIM**

 

 

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