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Entrevista do Marcelo no programa Juca
Entrevista, com Juca Kfouri
Convenção:
JK = Juca Kfouri
MRP = Marcelo Rubens Paiva
JK: Olá, eu sou Juca Kfouri e vou
conversar hoje com Marcelo Rubens Paiva.
[Para o Marcelo:] Quem é Marcelo Rubens
Paiva?
MRP: [Ri:] Puxa, se eu soubesse, eu não
estava aqui. Eu estava... eu tava me
divertindo por aí adoidado. Não,
brincadeira. Eu... eu sou escritor, nasci em
1959, em São Paulo, no bairro da... da...
Morei na... na... A minha primeira casa foi
na Alameda Tietê... filho de um engenheiro e
de uma advogada... e, em 64, mudei para o
Rio de Janeiro... e virei torcedor do
Flamengo. Em 71, me mudei pra Santos e, pra
irritar os meus primos santistas, eu virei
corinthiano, pensando que, por ser
flamenguista, eu era... eu tinha que torcer
pelo time da massa da torcida de São Paulo.
E, em 77, eu virei mais corinthiano ainda
porque eu estava no estádio num dia em
que... talvez num dos mais importantes dias
da história do time... que foi quando o
Basílio fez aquele gol 1 a 0 contra a Ponte
Preta e recuperou um troféu do Campeonato
Paulista, que não ganhava há vinte e tantos
anos. E acompanhei depois, o Corinthians...
[Ri:] Não sei, a gente já tá falando de
futebol...? Parece que a gente se...
JK: Não sei, não perguntei nada...
MRP: A gente se deixou levar pelo futebol,
né?
JK: É, eu não perguntei nada, mas tô
achando isso interessantíssimo...
MRP: É... E, aí... e acompanhei o
Corinthians na... na grande... na que eu
acho que é uma das mais bonitas fases do
Corinthians, que foi na época da democracia
corinthiana. Não só do aspecto ético, que
envolvia todo o time, a direção do clube,
como até do próprio futebol jogado, que era
um futebol lindíssimo, né?, um futebol de
arte... com Sócrates, Vladimir, Zé Maria...
e muitos outros... Casagrande... [Sorri, em
tom de provocação:] E, hoje em dia,
infelizmente, eu acho que eu estou voltando
a ser mais Flamengo do que Corínthians
porque o Flamengo tá conseguindo, né?, sair
das cinzas enquanto que o Corínthians está
se afundando cada vez mais...
JK: [Para a câmera:] Faltou dizer, entre
tantas coisas, que este engenheiro, pai do
Marcelo, era deputado, deputado Rubens
Paiva, foi morto, pela ditadura militar,
jogado de um avião, na selva, e essa mãe
advogada, [para obter confirmação do
Marcelo:] Dra. Eunice...?
MRP: Dra. Eunice.
JK: É... é, assim, um exemplo de bravura,
de mulher que lutou até a última trincheira
para que houvesse o reconhecimento do
assassinato do deputado Rubens Paiva.
MRP: É verdade.
JK: É, mas... vamos de falar de coisas
bem mais felizes e agradáveis. Se é que é
feliz e agradável lembrar que nessa semana,
então, que a sua parte Flamengo deve estar
preponderando, até porque o fato de você não
ter escolhido o Santos dos seus primos pode
te causar algum dissabor nessa semana... do
Santos bi campeão paulista.
MRP: É verdade. Nos últimos anos,
inclusive.
JK: Exatamente. Não é?
MRP: É verdade. Hoje em dia... mas é certo
que eu... que eu... eu acho que todo
paulistano tem um carinho pelo Santos tão
grande que hoje, por exemplo... aliás,
ontem, quando o Santos ganhou do...
ontem...
JK: Ontem!
MRP: Quando o Santos ganhou do São Caetano
e, depois quando veio aquele hino... que é
um hino bastante engraçado... um hino bem
diferente... [Cantando:] "Santos, Santos...
gooool!"... É um hino meio... meio infantil,
até, né? E eu comecei a chorar, de emoção,
de me lembrar de Santos, dos meus primos, de
todo... de tudo que os santistas, né...?,
eles... eles... que, como os corinthianos,
eles também passaram um tempo de... né?...
da famosa era, da pós era Pelé, de
sofrimento... de um time quase que, né?, não
vinha jogar mais em São Paulo... e que,
agora, milagrosamente... que, você vê como é
o futebol... é a coisa mais simples do
mundo. Quando você tem uma boa
administração, o time, né?, o time
deslancha. Que é o que aconteceu com o
Flamengo também que, agora, depois de passar
por uma catástrofe, uma tragédia, conseguiu,
né?, mais ou menos, bem ou mal, se
reconstruir... ganhar a Copa do Brasil, a
Libertadores... o time não é ruim... e
lotando o Maracanã e ganhando o campeonato
carioca, né? Então, eu acho que... eu acho
que eu fiquei emocionado, até quase... até
chorei, por lembrar a minha infância e por
ficar feliz pelos santistas. Porque eu acho
que, apesar...
JK: Você é chorão?
MRP: Eu sou chorão.
JK: É?
MRP: Eu sou. Sou. No futebol, bastante,
até.
JK: E no cinema, é desses, assim, que
chora...?
MRP: [Confirmando:] No cinema.
JK: No cinema, tá.
MRP: Choro até em comercial bonito... [Ri:]
Choro até em reportagem de telejornal
piegas...
JK: Sei, sei... não pode ver um Love
Story?
MRP: Não! Choro, acho bonito... eu gosto.
JK: Marcelo, a gente tava aqui fazendo as
contas, antes de começar o programa, você
tem oito livros publicados a partir do
Feliz Ano Velho, que foi o primeiro. Né?
Quando você era um menino de...? Vinte
anos...?
MRP: Vinte e três.
JK: Vinte e três anos?
MRP: É, vinte e três.
JK: Que é o livro que lança, né?, o
Marcelo, nesta vida de escritor bem
sucedido. Depois, peças de teatro, se eu não
tô enganado, você tem sete, entre coisa sua
e peças que você adaptou...
MRP: É. [Pensando:] Peças de teatro, eu acho
que eu tenho... eu não sei... eu não sei
muito bem a conta...
JK: Tá...
MRP: Porque tem umas inéditas, tem umas que
estrearam no Rio mas não vieram pra São
Paulo, é meio... é meio confuso...
JK: Tá...
MRP: ... contabilizar...
JK: Tá, tá... Agora, você nunca escreveu
nada tendo o futebol como tema.
MRP: Nunca.
JK: Pensa nisso ou não?
MRP: Penso.
JK: É?
MRP: Penso.
JK: O que seria, assim?
MRP: Eu tive uma idéia de um time do
interior. Porque, quando eu morei em Santos,
foi de 71 a 74... Bom, quem é que treinava
na Vila Belmiro de 71 a 74? Era Pelé,
Clodoaldo... era um time... a gente...
entendeu? Não tinha dimensão do que era
aquilo que tava acontecendo naquele momento,
naquele espaço. E a minha escola era ao lado
do... era entre a Vila Belmiro e o campo da
Portuguesa Santista. Então, assim, o
futebol, pra uma cidade do interior, ele
mobiliza muito mais até do que o futebol pra
uma cidade grande. Porque você vai no
treino, você vê o cara na padaria, você,
né?, conversa direto, e a cidade inteira se
mobiliza prum jogo, né? Então, ao mesmo
tempo que assistia muito aos treinos do
Santos, eu ia ver muito os jogos da
Portuguesa Santista... e é um time
divertidíssimo, porque tem uma torcida de...
sei lá... três pessoas...
JK: É...
MRP: Mas, o resto, é de povo de Santos, que
vai ver o jogo, lá... como quem vai ver uma
peça de teatro, vai ver um jogo de futebol.
E eu tinha muito a vontade de escrever a
história de um time pequeno, legal,
entendeu? E eu me lembro muito bem de uma
vez... em que a Portuguesa Santista
contratou o Antenor, que era um ponteiro
direito que... o grande currículo dele era
que ele tinha jogado no Santos durante
alguns meses, com o Pelé... e, assim, o
estádio lotou pra ver a estréia desse
Antenor, entendeu? E não é que o cara... dão
a bola pra ele, ele pisa na bola, destronca
o tornozelo, e sai contundido e nunca mais
aparece...?
JK: Acabou o lateral.
MRP: Então, essas coisas é que são
interessantes de se contar no futebol. Mas,
assim, por outro lado, os escritores têm
muito receio...
JK: É verdade...
MRP: Né?, de... Nenhum escritor se aventurou
muito, né? Porque eu acho que a paixão... é
maior, né?, do que... do que...
JK: [Interrompendo:] O Alberto Nena
Júnior diz que são raras as grandes obras de
arte sobre o futebol no Brasil porque o
futebol brasileiro é tão artístico que é
difícil uma obra de arte reproduzir. Mas
seja como for, fica aí o desafio, pro
teatrólogo Marcelo Rubens Paiva porque há
uma peça fantástica, dos anos cinqüenta...
se não for cinqüenta, é anos sessenta...
talvez, anos sessenta... É o Chapetuba
Futebol Clube, do Oduvaldo Viana Filho, que
é exatamente uma peça sobre um clube
pequeno, um clube do interior. Nós vamos
fazer a nossa primeira pausa. Voltaremos em
seguida com Marcelo Rubens Paiva. Até já.
[PAUSA.]
JK: [Para a câmera:] Estou conversando com o
escritor, com o teatrólogo, com o jornalista
Marcelo Rubens Paiva, que aliás tem uma
coluna semanal no Estado de São Paulo. Na
última coluna do Marcelo, ele escreveu sobre
o Peneco...
[Marcelo ri.]
JK: Seja isso o que for, e ele vai
explicar... Que é uma apropriação que ele
fez, de uma sigla, né? [Achando graça
curiosa:] Sigla dos o quê...?
MRP: Pequenas...
JK: Pequenas Neuroses...?
MRP: Pequenas Neuroses Contemporâneas.
JK: Pequenas Neuroses Contemporâneas.
MRP: É.
JK: PNC. E ele achou melhor trata-las
como Peneco e disse que, entre as pequenas
neuroses contemporâneas dele, está a mania
de fazer listas. As mais variadas. Desde
como você trata o menino de rua que vem te
pedir esmola, no automóvel, até outras
situações do cotidiano. Nessa sua mania de
fazer listas, Marcelo, tem uma lista dos
grandes times que você viu?
MRP: Tem.
JK: Dos grandes jogadores inesquecíveis
pra você?
MRP: Tem.
JK: Tem?
MRP: Tem.
JK: Assim, na ponta da língua? Ou não?
MRP: Na ponta da língua, tem.
JK: Tem?
MRP: Você quer o quê? Uma seleção? Ou você
quer...?
JK: Uma seleção primeiro.
MRP: De futebol?
JK: De futebol.
MRP: De todos os tempos?
JK: De futebol de todos os tempos.
MRP: Internacional ou brasileira?
JK: Começa pela brasileira.
MRP: Bom, goleiro, Tafarel... eu acho que o
Leão, também...
JK: Tá...
MRP: É... Carlos... lateral direito, Zé
Maria... Cafu... é... não vi Nilton Santos
jogar... zagueiro, Oscar com o Juninho...
com o Marinho... lateral esquerdo, o
Júnior... o Roberto Carlos até estava na
lista até o último episódio, também...
JK: [Ri:] Você tirou ele da lista...?
MRP: Número cinco, Clodoaldo...
JK: É...
MRP: Bom, eu vou colocar muita seleção dos
anos setenta, que foi a primeira seleção que
me fez, né?, gostar de futebol... É... meio
campo... armação, Zico, o Pelé... ataque,
Jairzinho... é... Romário e Paulo César
Caju...
JK: Maravilha.
MRP: ... que era o meu... ou o Rivelino.
JK: Setenta, você diz. Foi aí que você
diz que você se apaixonou pelo futebol.
Nunca pintou em você, Marcelo, a confusão
entre o Brasil e a ditadura militar, que
matou o seu pai?
MRP: Muito...
JK: Ah.
MRP: É... o meu pai tava vivo aí.
JK: Sim.
MRP: O meu pai morreu em 71.
JK: Sim.
MRP: Nós acompanhamos a Copa de 70 e eu
lembro que, mesmo... apesar dele ser um
homem contra o regime militar, ele torcia
pelo Brasil.
JK: Claro.
MRP: Eu acho que... eu me lembro por exemplo
que, na minha casa, eu coloquei bandeirinhas
do Brasil na janela e a minha irmã mais
velha, a Veroca, que era a mais consciente
politicamente, era a mais velha, ela ficou
revoltada, me acusando de estar defendendo o
regime. E eu achei aquilo um absurdo, eu
tinha onze anos de idade...! Eu tô
defendendo o Clodoaldo! Eu não tô pensando
no regime! E... m-mas havia essa... esse,
né?, conflito. Mas eu acho que eu duvido que
tenha um brasileiro que não tenha torcido
pelo Brasil. Eu não conheço. Você conhece
algum?
JK: Não.
MRP: Mesmo os mais guerrilheiros, mesmo os
mais... né?... ferozes... que, combatentes
da ditadura... não torciam contra. Porque...
porque o Brasil era muito superior àquela
mediocridade toda. O Brasil era... era...
aquele futebol era tão bonito, né? Era tão
bem jogado, um time tão raçudo, tão bem
preparado... é... só ganhava de goleada...
Era um time que... ele saiu do Brasil já
desacreditado, mas ele se imantou de um
jeito que foi uma empatia fantástica e que
são até hoje os grandes intelectuais do
esporte. Se você pegar, por exemplo, a
maioria dos comentaristas ex-jogadores, é
dessa época aí, o Rivelino, o Gérson... o
Tostão...
JK: Sim.
MRP: ... se tornou um grande...
JK: Sim.
MRP: ... colunista, né...?
JK: Sim, sim.
MRP: O Pelé, que é um filósofo do futebol...
e eu acho... Por exemplo, uma vez, quando a
IstoÉ fez uma lista... fez uma votação, do
maior brasileiro do século, eu votei no
Pelé.
JK: Mmhmm.
MRP: Por ser negro, por ter, né...? E por
ser, eu acho que o símbolo do Brasil durante
o século passado.
JK: Olha, eu acho que aí...
MRP: Inevitavelmente.
JK: Aí...
MRP: Ou o Pelé ou o Tom Jobim. Um dos dois.
JK: É, eu tô de acordo com você. Eu
ficaria entre os dois também, e... mas acho
que o Pelé... a imagem do Brasil se confunde
com o Pelé. Outro dia, foi feita uma eleição
mais séria, né? Ganhou o Getúlio Vargas. E
eu acho até graça, também. Porque, sem
dúvida nenhuma, o brasileiro mais conhecido
da história de quinhentos e tantos anos do
Brasil é o Pelé e o grande embaixador do
Brasil, né?...
MRP: E eu acho que...
JK: [Continuando o raciocínio:] ... é o
Pelé.
MRP: ... é o cara que levou o nome do Brasil
pro resto do mundo...
JK: Sem dúvida.
MRP: ... essa é uma coisa importantíssima.
JK: Sem dúvida.
MRP: Que fez o Brasil ser o... um país
reconhecido.
JK: Nunca aconteceu de eu ir num país
estrangeiro e eu falar, sou brasileiro, e
alguém falar assim... Getúlio Vargas?
[Risos.]
JK: Com o Pelé, já aconteceu um milhão de
vezes, né? Agora, e tem uma outra coisa, né,
Marcelo? Permitir a confusão entre o país e
a ditadura era permitir uma usurpação até
dos nossos sentimentos, né?
MRP: É verdade.
JK: Já tinham nos usurpado a
liberdade...
MRP: Exatamente.
JK: Iam nos usurpar também...? Ia
permitir isso?
MRP: É...
JK: Aquilo que a gente tem de mais
íntimo?
MRP: É... exatamente. E interessante porque
era uma época no futebol, ô Juca, que
você... você sabe melhor do que eu, que o
futebol era jogado com mais romantismo...
JK: Sem dúvida.
MRP: ... com mais paixão do que com... do
que com dinheiro, né? Quer dizer, esses
caras... eles não... não sei se eles não
faziam questão do dinheiro, mas eles faziam
muito mais questão da sua... da sua paixão
pelo Santos, por exemplo. O Pelé não saiu...
o Pelé, ele não saía do Santos, né? Ele só
saiu do Santos depois que ele se aposentou.
E, depois, durante muitos anos, e ele já um
homem rico... e eu lembro que, em Santos, o
Pelé era considerado o homem mais rico da
cidade... [Divaga:] Não é, né?,
evidentemente... mas, na fantasia da
população, era... e que tinha a maior
casa... tinha uma casa enorme ali, na Ponta
da Praia... Mas, antes dessa casa, o Pelé
morou, durante muitos anos, na pensão com os
outros jogadores do Santos.
JK: Isso.
MRP: E isso, no documentário do Márcio
Henrique, tá muito claro. Quer dizer, hoje
em dia, você vê, entendeu?, esses caras,
entendeu?, jogam seis meses no Corínthians
e, aí, fazem um contratinho pra jogar na
Casa do... na Casa do Chapéu por um pouco
mais, sabe...? Tudo é, tudo é dinheiro, é
tudo... uma... uma falta de paixão e de amor
pela camisa, né? Você não vê um jogador mais
no Brasil e que... e que mantém uma
constância, num time, né? E que seja a
identidade da torcida, como por exemplo o
Rogério Ceni, um cara desses... O Rogério
Ceni...
JK: O Rogério Ceni é uma exceção, exemplo
raro...
MRP: O Edmundo...
JK: ... uma avis rara, hoje.
MRP: O Edmundo, apesar de ter jogado em
outros lugares, também tem esse... né?, esse
sentimento de paixão pelo clube. O resto não
tem. E é por isso que o Corínthians tá onde
tá. Quer dizer, não... Aliás, eu acho que o
Corínthians tinha que sofrer uma intervenção
dos jogadores históricos do Corínthians. Eu
sei que isso é impossível de acontecer no
futebol brasileiro...
JK: Ahã...
MRP: Mas, se juntar Zé Maria, Vladimir, até
o Rivelino... apesar de depois ter ido pro
Fluminense... é... o Casão, entendeu...?
Pegar um time de jogadores que entendem de
futebol, que possam ser bons dirigentes...
como o Vladimir foi administrador do
Pacaembu... e tomar o time, e organizar
aquele time, eu acho que seria uma outra
história, né? Não esse amadorismo que a
gente vê hoje.
JK: [Para a câmera:] Você sabe que, para
conversar com o Juca Entrevista, basta
entrar na página da ESPN...
www.espn.com.br/jucaentrevista... Tem
mais um bloco de conversa com Marcelo Rubens
Paiva. Até já.
[PAUSA.]
JK: [Para a câmera:] Estou conversando com o
Marcelo Rubens Paiva que, entre outras
coisas, está relançando...
MRP: É verdade...
JK: ... seus livros. Está relançando,
pela Editora Objetiva, livros como este...
[Juca mostra o Não És Tu, Brasil para
a câmera.]
MRP: Não És Tu, Brasil.
JK: Não És Tu, Brasil! Ou o...
MRP: O Feliz Ano Velho...
JK: ... Feliz Ano Velho, que é
absolutamente... Bom, este... este já correu
o mundo, né?
MRP: [Encabulado:] Já.
JK: Já correu o mundo algumas vezes. Já
deu algumas voltas ao mundo.
MRP: Já.
JK: O Adeus Ano Ve...
[Corrige-se:] O Feliz Ano Velho, que
é uma maravilha.
MRP: Este é o meu segundo livro, Blecaute.
JK: [Mostrando o livro para a câmera:] E
esse é o segundo livro, o Blecaute.
MRP: Todos menores, agora, porque eu tirei
muitas páginas.
JK: Aí é que tá. Você não se limita a
relança-los. Você reeditou-os.
MRP: Reeditei.
JK: Exatamente.
MRP: Cortei. Cortei muita coisa. Porque...
muita gordura... é... muita... [Rindo:] é
... muita filosofia barata...
JK: Tá.
MRP: Porque eu era muito jovem, e eu acho
que... gostava de pensar da vida e tal... e,
às vezes... às vezes, prejudicava até a
própria narrativa. Aí, relendo os livros, eu
falei, nossa!, isso aqui não precisa... isso
aqui, pô!?... corta essa frase, e tal... E,
aí, não sei se foi um ato de
irresponsabilidade... porque, por exemplo,
esse livro, Não És Tu, Brasil, ele
tem algumas coisas... é... de pesquisa, que
eu fiz, durante seis anos, que foram até
citadas pelo Elio Gaspari, no livro dele...
JK: Ahã.
MRP: ... lá, da ditadura, e que... e que eu
não sei se eu cortei ou não. Entendeu? Essas
coisas que o Elio Gaspari fala que... eu
lembro que eu consegui...
JK: É onde eu ia chegar...
MRP: É.
JK: Esse era o ponto. Quer dizer, eu
imagino que você... É corajosa, essa sua
atitude, porque você corre o seguinte risco.
De alguém, que vai comprar, que vai reler, e
vai dizer... mas e aquela frase?!, que é a
frase da minha vida, que eu estabeleci como
guia pros meus dias, não tem mais!?
MRP: [Ri, encabulado:] É... não, mas as
coisas importantes estão. Aliás, você vê que
os livros são bem grossinhos, ainda.
JK: Sim, são, são, são. Não se pode dizer
que...
MRP: As coisas importantes estão.
JK: Não se pode dizer que...
MRP: Eu eliminei muitos detalhes, como por
exemplo, uma hora eu falo do avião Electra.
JK: Tá.
MRP: Ninguém mais se lembra que o avião
Electra era o avião que fazia a ponte
aérea...
JK: A ponte aérea.
MRP: ... entre Rio e São Paulo.
JK: Belíssimo avião.
MRP: Tem uma hora que fala...
JK: Nunca caiu!
MRP: É... nunca caiu.
JK: Isso.
MRP: Mas foram substituídos.
JK: Foram.
MRP: Tem uma hora que fala em Boeing
Presidencial. Já não é mais. É um Airbus.
JK: Um Airbus!
MRP: Tem uma hora que fala em... por
exemplo... Chegou na minha casa e olhou o
meu computador e falou... puxa!, você tem um
PC...! Como se fosse um... um... um
instrumento de altíssima tecnologia, quando
hoje todo mundo tem computador em cada
esquina, né? Mas, na época em que eu escrevi
um livro, ter um computador... e eu fui um
dos primeiros a ter um computador aqui,
na... entre a turma... era uma grande
novidade. Os meus amigos vinham em casa pra
ver o meu computador, né? Então, são esses
ajustes que foram feitos. Mas eu... a alma e
a base... tá... ainda tá aí.
JK: [Concordando:] Lógico, tem que estar.
Eu tenho certeza disso. Bom, falávamos de
listas. Qual é o grande, o maior time que
você viu jogar?
MRP: Copa de 70.
JK: Seleção Brasileira de 70?
MRP: De 70.
JK: E times de clube?
MRP: Puxa, vários... o do Zico, né?
JK: Ah.
MRP: Zico, Carpegiani...
JK: Flamengo de 81.
MRP: ... Júnior, Atílio, aquele tinha
timaço... O Inter, do Falcão...
JK: De 76.
MRP: É... o São Paulo do Raí... o São Paulo
do Telê, né?
JK: É.
MRP: Do Raí, do Telê...
JK: Tá...
MRP: O Corínthians do Casão... e do
Sócrates... era um belíssimo time. O
Corínthians... por incrível que pareça... o
Corínthians do Parreira era um bom time...
JK: Ah...
MRP: O Palmeiras do... do Parreira...
[Corrige-se:] Do Parreira não, do
Luxemburgo, né?
JK: Aquele time que foi campeão
paulista... é... quase invicto... só perdeu
pro Guarani...
MRP: Tinha um time que tinha assim... era
Cafu, Rivaldo...
JK: Rivaldo...!
MRP: Era Roberto Carlos... era uma loucura,
aquele time...
JK: Era um timão.
MRP: Um absurdo.
JK: Um timaço. Aquele time, você sabe que
é o time que eu digo, assim, que teve
durante dois meses, que foi o time que eu
vi, que mais se aproximou da perfeição do
Santos do Pelé.
MRP: É. Mas teve... tem um outro time que a
gente não tá falando, hein? Que é o Santos
do Robinho.
JK: Esse Santos de 2002?
MRP: É... Elano, Robinho...
JK: Robinho, Elano, Renato, Diego...
MRP: Esse era um timaço.
JK: [Concordando:] Era um timaço. Era um
timaço. O [?], pelo Emerson Leão...
MRP: É verdade, o Emerson Leão. O Emerson,
que é um grande técnico, e que eu achei um
absurdo ter saído do Corínthians.
JK: É?
MRP: Eu achei que foi um erro.
JK: Ahã...
MRP: Eu defendi a permanência do Leão. Eu
acho que não tem que sair o Leão, tem que
sair é o time. Tem que sair é... os
dirigentes é que têm que ir embora e não o
Leão, que era o cara que tava querendo
acertar aquilo lá, né? Mas a torcida do
Corínthians, ela tá deturpando a...
JK: Se há um traço teu, Marcelo, é o da
franqueza, da sinceridade que, até, algumas
pessoas consideram crueza, né?
MRP: É.
JK: Que é um estilo teu, né?
MRP: Falar o que... falar o que pensa.
JK: É, falar o que pensa. Dia desses, o
Dan Stulbach recusou um convite do Dualib
para conhecer o Memorial do Corínthians...
MRP: [Ri:] Certo...
JK: ... dizendo que o único convite que
ele aceita é para a da data da renúncia do
Dualib. E que ele não quer ir ao Memorial do
Corínthians porque ouviu dizer que o
Memorial é lindo, mas que o Memorial vai
lembra-lo de tempos de uma grandeza que o
Corínthians não tem mais.
MRP: É...
JK: Você acha essa uma atitude, como
algumas pessoas acharam, de uma pessoa mal
educada, porque recusou um convite?
MRP: Não...! Não, nem um pouco! Esse homem
tá destruindo o Corínthians, tá destruindo
uma história! É o símbolo do time do Brasil.
O que tá acontecendo no Corínthians é a
catástrofe. Eu acho que nem um pouco. E é
engraçado porque, por exemplo, Juca, eu via
jogo no estádio ao lado das Gaviões... dos
Gaviões da Fiel... eu era... eles me
carregavam até lá em cima... me defendiam...
eu era amigo... O meu enfermeiro particular
era o... da época, era o repiriqueiro da
Fiel, o saudoso Neguinho... o Edsinho, como
eles chamavam... e, hoje em dia, quer dizer,
eu comecei a voltar a ser mais flamenguista
do que corinthiano no episódio do
Edílson...
JK: Ah, tá...
MRP: Que o... que o Corínthians tinha ganho
o campeonato mundial, tinha ganho o
brasileiro, tava voando em campo, perdeu um
paulista porque tavam cansados... perderam
um paulista, entendeu? E a torcida foi lá e
invadiu, e ped... exigiu a renúncia.
JK: E a saída do time...
MRP: E a saída do time e o Edílson foi
embora. Ali, eu vi que a torcida começou a
atrapalhar mais do que a ajudar. E,
ultimamente, a torcida do Corínthians tem
atrapalhado muito mais do que ajudado. Tá
difícil de um jogador jogar no Corínthians.
Eu entendo a tensão que existe lá dentro.
Porque você perde e vai apanhar. É uma coisa
que não se pensa no futebol moderno, esse
tipo de reação. E a torcida corinthiana, ao
invés de, por exemplo, bater em jogador,
ameaçar, ao invés de pedir a saída do Leão,
deveria ir na casa do Dualib, deveria fazer
protesto em frente da sede do clube. Contra
a situação do time, que é um time que está
abandonado, administrativamente falando. Um
time que não tem dono, né? Um time que tem
uma parceria que ninguém sabe quem é, de
onde vem o dinheiro, que não entra mais
dinheiro... Então, é... a própria torcida tá
atrapalhando mais do que ajudando. Então, é
isso que me deixa, sabe?, cada vez mais
revoltado com o time que eu deveria estar
torcendo fanaticamente, apaixonadamente... e
tô desanimado. Eu e muitos corinthianos. E
eu, também, jamais daria esse prestígio pra
esse Dualib, também. Jamais iria no
Memorial...
JK: [Concordando:] ... a convite dele.
É... esse desânimo, que você...
MRP: Que também os palmeirenses tão vivendo
uma coisa parecida, né?
JK: É, só que eu acho que o Palmeiras tá
com uma luz no fim do túnel, né?
MRP: É...
JK: Com o Beluzo, com o Cipullo...
MRP: É... tem...
JK: Tem uma coisa... que o Palmeiras tá
querendo voltar pros trilhos.
MRP: É...
JK: O Corínthians, você não vê sinal
disso.
MRP: É...
JK: Né?
MRP: [Rindo:] O Washington Olivetto podia,
né?, fazer...
JK: [Rindo:] É...
MRP: [Rindo:] Washington Olivetto pra
presidente do Corínthians...!
JK: O [?] também, né? O [?] seria um bom
presidente, né? Já tentei convence-lo...
Olha, seria, assim, um fecho de ouro pra uma
carreira bem sucedida de empresário, né? E
ele diz que não tem mais idade pra isso. E o
Washington diz a mesma coisa, que é muito
moço pra isso. Então, ficamos numa situação
realmente desgraçada. Esse desencanto com o
Corínthians, de alguma maneira, você sente
também em relação ao futuro do Brasil ou
não, Marcelo?
MRP: Não...
JK: Não?
MRP: Não. Eu acho que o Brasil, ele tem umas
coisas... é... difíceis de serem resolvidas,
que é essa desigualdade social, que parece
que só piora, né? Esse buraco entre... essa
distância terrível entre ricos e pobres que
só aumenta... as cidades cercadas cada vez
mais por favelas, a violência aumentando,
né...? Mas outras coisas têm melhorado
bastante, assim... por exemplo... é...
esse... essa prisão da máfia do Bingo, né?,
essa é uma coisa que você fala, puxa!,
finalmente, se prendeu um desembargador! Né?
JK: Tá...
MRP: Infelizmente, sabe-se do Brasil que a
corrupção, ela é histórica, mas nunca se
viu, né?, uma política, uma cobrança da
sociedade pra que isso seja encerrado. O
caso dos postos de gasolina também...
JK: Ahã...
MRP: Quer dizer, foi fechado esse aqui da
esquina... não esse da esquina, mais para
baixo da ...., que todo mundo do bairro sabe
que aquele posto vende gasolina adulterada,
mas tava lá, funcionando há anos...
JK: Ahã...
MRP: Tá lá, agora, tá lacrado, né? Então,
assim, algumas coisas estão, né?, acho que a
sociedade não suporta mais esse tipo de
desvio de conduta ética, né? Apesar da
conduta ética ser cada vez mais rara em
muitos setores públicos, né? E privados
também. Mas, por outro lado, eu acho que o
Brasil tá melhorando, viu? Algumas coisas, o
Brasil tá melhorando muito. Eu vejo uma
juventude muito mais informada, entendeu?,
que acessa a internet e que... Eu vejo, por
exemplo, uma juventude da periferia com
muito mais consciência social do que aquele
brasileiro pobre que, né?... que abaixava a
cabeça...
JK: Que abaixava a cabeça... que se
conformava...
MRP: É...
JK: Sim, senhor...
MRP: Sim, senhor...
JK: Faremos tudo, faremos tudo...
MRP: Exatamente.
JK: [Para as câmeras:] Esse é Marcelo...
MRP: [Interrompendo:] Tomara que isso se
revele, né?, na democracia...
JK: Tomara, tomara. [Para a câmera:] É
bom, é bom ouvir quem não perde a esperança.
[Marcelo ri.]
JK: Já dizia Ivan Lins, desesperar jamais.
Marcelo, muitíssimo obrigado.
MRP: Obrigado...
JK: Infelizmente, o papo acabou. Sábado,
a gente volta com Juca Entrevista. Até lá.
EM OFF
Marcelo Rubens Paiva, um exemplo de vida,
uma cabeça iluminada, um brasileiro
arretado.
**FIM**
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