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Screencaps - Entrelinhas

 

Entrevista concedida ao programa Entrelinhas, TV Cultura
Levado ao ar em 09 de maio de 2007

Marcelo Rubens Paiva


[A entrevista começa no que parece ser a biblioteca ou o escritório do apartamento do autor.]

Marcelo: O livro, que eu me lembro que eu li, que... que eu fiquei absolutamente encantado, foi... Os Meninos da Rua Paula. Tinha... é...gangues de ruas, brigas, é um livro bem trágico, até... E um outro livro também bastante... é... que fez bastante a nossa cabeça era O Meu Pé de Laranja Lima. A cabeça da minha geração. E, na adolescência, aí... aí mudou. Aí, é um outro tipo de leitura. Era uma leitura mais... é... densa...Tolstoi, Dostoevsky e tal... Sartre...

[Corta.]

Marcelo: Eu era surfista, skatista... é... crise existencial e fazia teatro.

[Corta para mostrar a cena em que Mário, em Feliz Ano Velho, mergulha do alto da rocha e bate com a cabeça numa pedra no leito do rio.]

Marcelo: Aí, eu sofri um acidente e escrevi um livro... escrevi uma resenha pra um... pra uma revista... sobre um livro de um paraplégico... do João Carlos Petti... e, aí, leram essa resenha, que eu escrevi... o editor da...da... Brasiliense leu... e gostou do meu estilo. Aí, ele me convidou pra... ele me sugeriu [pra] escrever Feliz Ano Velho... Aí, eu não parei mais.

Entrelinhas: Você fez um programa de literatura na Cultura...?

Marcelo: Fiz.

Entrelinhas: Ah, então... a gente achava...

Marcelo: Foi o Leitura Livre.

Entrelinhas: [Ri, sem graça:] ... que o nosso era o primeiro, né...?

[Corta para mostrar Leitura Livre, em 1984, o programa que o Marcelo fez na Cultura:]

Marcelo [mais jovem, microfone na mão, fazendo voz empostada de mistério, que nem locutor de rádio:] Alô... (incompreensível - denedrim...?). Estamos aqui ao lado de um verdadeiro rato da biblioteca. Ele prefere ser chamado de ratão. É Jair Vasconcellos de Barros, que é químico, professor de Latim e colecionador de moedas.

[Corta, voltando à entrevista:]

Marcelo: Era um programa legal... entrevistas muito notórias, assim...

[Corta para mostrar outra entrevista do Leitura Livre:]

Marcelo [mais jovem, camisa azul, microfone na mão]: Estamos aqui com Inácio de Loyola Brandão, e.. que lançou um livro recentemente... O Vento... [corrige-se:] O Verde Violentou o Muro... Então, pra começar do princípio... Primeiro, uma curiosidade... quem é que dá os títulos aos seus livros...?

ILB: Olha, com muita dificuldade, eu mesmo.

[Corta, voltando à entrevista presente:]

Marcelo: Depois, eu fiz o programa Fanzine, né?, que é um programa ao vivo... mas não sobre literatura... Era um programa... é... variado, de cultura geral.

[Corta, para mostrar o Fanzine, que começa com música, em tom de caos, a câmera voando pelo cenário até encontrar o Marcelo, sentado atrás de uma mesa:]

Marcelo [forçando a voz]: Ah, bem vindo ao Fanzine...!

[Corta, voltando à entrevista:]

Marcelo: O meu livro é... [Feliz Ano Velho] ele sofreu um preconceito por uma... por uma grande parte do mundo acadêmico por muitos anos. Que se ficava discutindo... [com voz de vilão:] Ah, isso aqui não é literatura... o que é isso? E foi proposital. Eu escrevi desse jeito exatamente pra provocar esse tipo de debate. De uma linguagem que era uma linguagem que se distanciava de uma linguagem que eles chamavam de norma culta. E eu falava... eu não tô escrevendo errado. É a língua que se adaptou ao jeito que eu escrevo.

[Corta.]

Marcelo: Minha literatura começa com Feliz Ano Velho, em 1982. E é um livro também que eu refiz... retirei umas frases problemáticas... que eu não gostava, é... mudei os nomes de umas personagens e tal porque... que me causavam problema, etc e tal... Eu escrevi quando tinha 26 anos... então, tinha umas frases feitas, umas coisas... uns clichezinhos... eu tirei tudo.

[Corta.]

Marcelo: Quatro anos depois, eu escrevi o meu segundo livro, Blecaute, que eu também reescrevi. Um livro de ficção... é... muito inspirado no realismo fantástico... Eu comecei a ler como o livro de um autor que eu não conheço, entendeu?

[Corta.]

Marcelo: Escrevi um romance chamado UA:BRARI... uma história de amor que se passa na Amazônia... Um livro de literatura policial chamado Bala na Agulha... que foi um livro que fez bastante sucesso na época, que também foi reescrito, que também vai sair agora uma edição nova... aí parei, durante anos... fui morar fora do Brasil, fiquei... fiz a minha tese, não defendi a minha tese... mas essa tese virou o meu livro chamado Não És Tu Brasil. Foi uma delícia reler todos os meus livros. Eu nunca tinha relido. Nunca. Só Feliz Ano Velho que eu tinha relido, uma vez.

[Corta.]

Marcelo: Aí, parei de escrever romance e fiquei só escrevendo pra teatro. Isso foi em 96.

[Corta.]

Marcelo: Aí, voltei pro romance, com Malu de Bicicleta, que eu escrevi em 2003. Este ano eu lancei O Homem Que Conhecia as Mulheres, que é um... que é outro livro de crônicas... o meu segundo livro de crônicas, só que com crônicas maiores...

[Corta: Marcelo lê um trecho do livro, a crônica Tarja.]

Entrelinhas: A Virgínia Wolf falava que, quando ela criava, ela sentia que... como se as palavras... era como elas se fossem tempestades dentro da cabeça dela... uma loucura, né?

Marcelo: É.

Entrelinhas: Pra você, como é que é a criação?

Marcelo: É assim também.

Entrelinhas: É assim também?

Marcelo: É uma... é uma brincadeira, é um... um... quebra cabeças, entendeu? Você vai... é... em todos os sentidos... de você brincar com as palavras... você vai buscando aquela palavrinha... pra encaixar ali... Muitas vezes, eu tô assim, na rua, e tenho vontade de voltar pra casa, pra escrever... pra continuar escrevendo, entendeu?

Entrelinhas: É?

Marcelo: É... Eu fico com saudade do personagem, entendeu?, eu fico com... raiva... com raiva de não poder estar com ele o tempo todo...Tudo é importante na literatura. Do personagem à história, à palavra que você está usando... ao estilo... e é uma delícia. Eu adoro escrever.

[Corta. Marcelo lê outro trecho de O Homem Que Conhecia As Mulheres.]


== FIM ==

[Entrelinhas, TV Cultura, programa originalmente levado ao ar quarta-feira,dia 09/05/07, reprisado domingo, 13/05/07.]

 
 
 

 

 

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