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Marcelo
Rubens Paiva
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[A entrevista começa no que parece ser a
biblioteca ou o escritório do apartamento do
autor.]
Marcelo: O
livro, que eu me lembro que eu li, que...
que eu fiquei absolutamente encantado, foi...
Os Meninos da Rua Paula. Tinha...
é...gangues de ruas, brigas, é um livro bem
trágico, até... E um outro livro também
bastante... é... que fez bastante a nossa
cabeça era O Meu Pé de Laranja Lima.
A cabeça da minha geração. E, na
adolescência, aí... aí mudou. Aí, é um outro
tipo de leitura. Era uma leitura mais...
é... densa...Tolstoi, Dostoevsky e tal...
Sartre...
[Corta.]
Marcelo: Eu
era surfista, skatista... é... crise
existencial e fazia teatro.
[Corta para mostrar a cena em que Mário, em
Feliz Ano Velho, mergulha do alto
da rocha e bate com a cabeça numa pedra no
leito do rio.]
Marcelo: Aí,
eu sofri um acidente e escrevi um livro...
escrevi uma resenha pra um... pra uma
revista... sobre um livro de um paraplégico...
do João Carlos Petti... e, aí, leram essa
resenha, que eu escrevi... o editor da...da...
Brasiliense leu... e gostou do meu estilo.
Aí, ele me convidou pra... ele me sugeriu [pra]
escrever Feliz Ano Velho... Aí, eu
não parei mais.
Entrelinhas:
Você fez um programa de literatura na
Cultura...?
Marcelo: Fiz.
Entrelinhas:
Ah, então... a gente achava...
Marcelo: Foi
o Leitura Livre.
Entrelinhas: [Ri, sem graça:]
... que o nosso era o primeiro, né...?
[Corta para mostrar Leitura Livre,
em 1984, o programa que o Marcelo fez na
Cultura:]
Marcelo [mais jovem, microfone na mão,
fazendo voz empostada de mistério, que nem
locutor de rádio:]
Alô... (incompreensível - denedrim...?).
Estamos aqui ao lado de um verdadeiro rato
da biblioteca. Ele prefere ser chamado de
ratão. É Jair Vasconcellos de Barros, que é
químico, professor de Latim e colecionador
de moedas.
[Corta, voltando à entrevista:]
Marcelo: Era
um programa legal... entrevistas muito
notórias, assim...
[Corta para mostrar outra entrevista do
Leitura Livre:]
Marcelo [mais jovem, camisa azul, microfone
na mão]:
Estamos aqui com Inácio de Loyola Brandão,
e.. que lançou um livro recentemente... O
Vento... [corrige-se:] O Verde Violentou
o Muro... Então, pra começar do
princípio... Primeiro, uma curiosidade...
quem é que dá os títulos aos seus livros...?
ILB: Olha,
com muita dificuldade, eu mesmo.
[Corta, voltando à entrevista presente:]
Marcelo:
Depois, eu fiz o programa Fanzine,
né?, que é um programa ao vivo... mas não
sobre literatura... Era um programa... é...
variado, de cultura geral.
[Corta, para mostrar o Fanzine, que
começa com música, em tom de caos, a câmera
voando pelo cenário até encontrar o Marcelo,
sentado atrás de uma mesa:]
Marcelo [forçando a voz]:
Ah, bem vindo ao Fanzine...!
[Corta, voltando à entrevista:]
Marcelo: O
meu livro é... [Feliz Ano Velho]
ele sofreu um preconceito por uma... por uma
grande parte do mundo acadêmico por muitos
anos. Que se ficava discutindo... [com voz
de vilão:] Ah, isso aqui não é literatura...
o que é isso? E foi proposital. Eu escrevi
desse jeito exatamente pra provocar esse
tipo de debate. De uma linguagem que era uma
linguagem que se distanciava de uma
linguagem que eles chamavam de norma culta.
E eu falava... eu não tô escrevendo errado.
É a língua que se adaptou ao jeito que eu
escrevo.
[Corta.]
Marcelo:
Minha literatura começa com Feliz Ano
Velho, em 1982. E é um livro também que
eu refiz... retirei umas frases
problemáticas... que eu não gostava, é...
mudei os nomes de umas personagens e tal
porque... que me causavam problema, etc e
tal... Eu escrevi quando tinha 26 anos...
então, tinha umas frases feitas, umas coisas...
uns clichezinhos... eu tirei tudo.
[Corta.]
Marcelo:
Quatro anos depois, eu escrevi o meu segundo
livro, Blecaute, que eu também
reescrevi. Um livro de ficção... é... muito
inspirado no realismo fantástico... Eu
comecei a ler como o livro de um autor que
eu não conheço, entendeu?
[Corta.]
Marcelo:
Escrevi um romance chamado UA:BRARI...
uma história de amor que se passa na
Amazônia... Um livro de literatura policial
chamado Bala na Agulha... que foi
um livro que fez bastante sucesso na época,
que também foi reescrito, que também vai
sair agora uma edição nova... aí parei,
durante anos... fui morar fora do Brasil,
fiquei... fiz a minha tese, não defendi a
minha tese... mas essa tese virou o meu
livro chamado Não És Tu Brasil. Foi
uma delícia reler todos os meus livros. Eu
nunca tinha relido. Nunca. Só Feliz Ano
Velho que eu tinha relido, uma vez.
[Corta.]
Marcelo: Aí,
parei de escrever romance e fiquei só
escrevendo pra teatro. Isso foi em 96.
[Corta.]
Marcelo: Aí,
voltei pro romance, com Malu de
Bicicleta, que eu escrevi em 2003. Este
ano eu lancei O Homem Que Conhecia as
Mulheres, que é um... que é outro livro
de crônicas... o meu segundo livro de
crônicas, só que com crônicas maiores...
[Corta: Marcelo lê um trecho do livro, a
crônica Tarja.]
Entrelinhas:
A Virgínia Wolf falava que, quando ela
criava, ela sentia que... como se as
palavras... era como elas se fossem
tempestades dentro da cabeça dela... uma
loucura, né?
Marcelo: É.
Entrelinhas:
Pra você, como é que é a criação?
Marcelo: É
assim também.
Entrelinhas:
É assim também?
Marcelo: É
uma... é uma brincadeira, é um... um...
quebra cabeças, entendeu? Você vai... é...
em todos os sentidos... de você brincar com
as palavras... você vai buscando aquela
palavrinha... pra encaixar ali... Muitas
vezes, eu tô assim, na rua, e tenho vontade
de voltar pra casa, pra escrever... pra
continuar escrevendo, entendeu?
Entrelinhas:
É?
Marcelo: É...
Eu fico com saudade do personagem, entendeu?,
eu fico com... raiva... com raiva de não
poder estar com ele o tempo todo...Tudo é
importante na literatura. Do personagem à
história, à palavra que você está usando...
ao estilo... e é uma delícia. Eu adoro
escrever.
[Corta. Marcelo lê outro trecho de O
Homem Que Conhecia As Mulheres.]
== FIM ==
[Entrelinhas, TV
Cultura, programa originalmente levado ao ar
quarta-feira,dia 09/05/07, reprisado
domingo, 13/05/07.] |