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O PRINCÍPIO
"(...)
BEM VINDOS A SÃO PAULO
A cidade estava parada, silenciosa. Não
havia nenhum movimento.
- Merca! Merda! - foram as melhores palavras
que Mário conseguiu dizer.
- Vai devagar! - alertou Martina apontando
para o farol vermelho.
Parei na faixa. Não passou nenhum pedestre.
Nenhum carro também. E aquele lugar era
bastante movimentado. Arranquei quando
acendeu o verde. O farol estava funcionando.
As luzes de algumas casas também. Os postes
de iluminação estavam acesos. Eletricidade.
Mas ninguém nas ruas. Comércio, bancas de
jornal, tudo fechado, esquinas desertas, um
silêncio estrangulador.
Uma cidade de presente.
Subimos a Avenida Rebouças. Os poucos carros
que víamos na rua estava parados; os
motoristas petrificados. Como aconteceu tudo
aquilo?
Por quê? Na Avenida Paulista, nada se mexia.
Nada! Parei o carro na frente do Conjunto
Nacional. Desliguei e desci, seguido pelo
casal. Parecia outra avenida, sem o típico
movimento. Parecia outra cidade, outro
mundo. O vento batia forte, contínuo. Dava
para ouvir o barulho do sapato no asfalto.
Algumas folhas voavam sobre o chão. Um
pequeno arbusto atravessou a esquina,
empurrado pelo vento. Ninguém. Ao longo de
toda a avenida avistava os faróis mudarem de
cor automaticamente. Mudavam ao mesmo tempo,
uns para verde, outros para vermelho. O
grande relógio digital, instalado no topo de
um edifício, marcava onze horas. Estranho,
mas aquele relógio ficava desligado durante
o dia. Mário tocou a buzina e gritou:
- TEM ALGUÉM AÍ??
Pausa. Ninguém respondeu.
Martina comentou que o 'fenômeno' deveria
ter acontecido durante a noite. Por isso os
poucos carros nas ruas, as luzes acesas, o
guarda rodoviário com a lanterna na mão, o
relógio digital...
- Será que esses carros funcionam?
- perguntei.
- Tudo nessa cidade funciona - Mário
respondeu.
Talvez.
- TEM ALGUÉM AÍ??
- gritaram.
Pausa. Ninguém.
- TEM ALGUÉM AÍ??
- gritamos.
Pausa. Nenhuma resposta. Fiquei ainda mais
aflito".
OUTONO
"(...)
Fiz de tudo para passar o tempo, mas parecia
que os relógios andavam para trás. Assisti a
uma porrada de filmes, li uma porrada de
revistas velhas e andei por quase toda a
cidade na porcaria daquela Veraneio. Estava
desesperado. Até quando?
Tinha arrepios à toa: quando ficava
desesperado sempre tinha uns arrepios
estranhos. Martina foi se enclausurando aos
poucos, como se estivesse se punindo por
alguma coisa. Mal trocávamos uma palavra.
Para falar a verdade, nos conhecíamos muito
pouco. Ainda estranhava seu jeito: conhecia
a Martina da USP, da rua, do social, mas a
Martina do dia-a-dia era diferente, aliás,
como todo mundo. Eu não tinha com quem
conversar, já que ela não me inspirava.
Passei a falar sozinho. Falava de tudo.
Contava piadas, narrava jogos de futebol,
qualquer coisa para fazer o tempo passar e
diminuir os arrepios. Me lembrei muito de
Cíntia Strasburguer com o seu lindo sorriso
e suas idéias malucas. Lamentei estar dura.
Poderíamos ter grandes discussões. Cheguei a
ir até a sua casa, perto da de Ângela Sauer.
Mas não havia ninguém. Ela e a família
deviam ter endurecido em Campos ou em
Ubatuba, já que tudo acontecera num feriado
prolongado.
Uma vez, eu e Cíntia discutimos horas porque
ela queria que queria ir para a África,
'recuperar as raízes perdidas'. Não
conseguia acreditar: uma burguesinha
paulista, loira como uma nórdica, achar que
tinha alguma raiz na África. Ela argumentava
falando que, antes de ser descendente de
europeus, ela era brasileira e portanto
tinha influência africana. Era uma menina
engraçada, cheia de idéias malucas.
Comecei a sentir falta do Mário. Saudade e
raiva por ele ter desaparecido, me deixando
na mão. Eu prometi nunca abandoná-lo. Ele
não. Por que não fiz ele prometer?
Ao mesmo tempo passei a duvidar de que ele
estivesse apenas querendo ficar sozinho.
Poderia ter acontecido alguma coisa".
INVERNO
"- Sei lá. É preto porque
é preto... - respondi à inusitada pergunta.
Martina se levantou,
apontou para a janela e disse solenemente:
- Pois a partir desta
data, eu determino que o asfalto é vermelho.
A cor preta é vermelha. Pelé foi vermelho. A
noite é vermelha. E fim de papo!
Fim de papo... Pode
parecer estranho, mas estávamos ficando
malucos mesmo. Às vezes entrávamos em
discussões absolutamente desnecessárias,
como transformar redondos em quadrados,
leves em pesados, pretos em vermelhos. Dava
pena de ver, mas era engraçado. Mudávamos as
coisas sem nos importar se era verdade ou
não. No fundo, no fundo, podíamos inventar
palavras, ou até mudar o significado delas.
As palavras não tinham o menor valor.
Combinava com a nossa situação. Talvez fosse
a tal liberdade a que Mário se referiu uma
vez. Talvez estivéssemos mesmo ficando
loucos. Talvez o preto tivesse se
transformado de vez. A verdade é que
gastávamos horas discutindo o que discutir;
e tudo era uma grande bobagem.
- Muito bem, sua vontade
será feita - disse Mário. - O preto será
vermelho. Vamos! - me convidou.
Eu fui. Martina, que
transbordava alegria, se despediu de nós
acenando um lencinho branco.
- Se minhas ordens não
forem cumpridas, vocês serão decapitados.
Mário riu e mandou
beijinhos com cara de idiota. Eu ri com cara
de idiota. E Martina... era a própria.
Estávamos mesmo ficando loucos. Fomos até a
Praça da Sé, no prédio do Corpo de
Bombeiros. Enquanto Mário examinava os
caminhões, fiquei sondando ao redor,
reparando que estava tudo muito sujo. Havia
menos pombas e a fonte de água não
funcionava mais. Os portões do 'templo da
paz' continuavam escancarados e também muito
sujos. Fiquei olhando tudo. Eu sempre ficava
olhando tudo. Um maníaco.
- Vamos, porra - Mário me
puxou pelo braço.
Eu sempre olhava tudo e
sempre tinha o braço puxado. A vida era tão
repetitiva... Quando me dei conta, estava ao
lado de Mário subindo a Avenida Brigadeiro
num caminhão de bombeiro. Um carro-tanque,
com mangueiras e mangueiras. Pegou numa loja
várias latas de tinta vermelha e jogou
dentro do tanque. Ele era esperto.
Passamos o dia inteiro
'pintando' o asfalto da Avenida Paulista.
Íamos e voltávamos ao começo da avenida
várias vezes; as mangueiras abertas jorrando
tinta vermelha. Uma bobagem, mas uma bobagem
bem criativa. Criamos a primeira avenida
vermelha do mundo. Se eu contasse, ninguém
acreditaria. Ninguém.
"(...)
Martina abandonou as
transmissões e inventou outro hobby: a
fotografia. Ficava horas instalando
potentíssimos spots em torno dos objetos
mais estranhos. Fotografava e se trancava no
laboratório de revelação montado em um dos
quartos da mansão. Certo dia, ela me
'contratou' para servir de modelo. Fiz
manha, não queria, sou tímido. Ah, deixa
disso, só um pouquinho, vai... Cedi. Afinal,
não tinha o que fazer. Ela me obrigou a
vestir uma farda de soldado e, com a cara
suja de graxa, fazer poses, como se eu
estivesse numa trincheira vigiando o
inimigo. Dei tudo de mim, experiente que era
em assistir a filmes de soldados vigiando o
inimigo. Fiz a pose, seriíssimo. Ela bateu a
foto, deu um sorriso e foi imediatamente
revelar. Continuei fazendo pose. O inimigo
estava na mira. Fiz cara de soldado atirando
no inimigo. O inimigo se escondeu. Rolei
pelo chão e fiz cara de soldado preocupado,
soldado se levantando decidido, soldado
invadindo a casamata. Fui atingido. Fiz cara
de soldado sendo covardemente metralhado,
soldado desabando no chão, morto. Fiquei
bastante tempo deitado no chão, morto. Ela
voltou e jogou a foto ampliada do soldado
vigiando o inimigo. Deu um sorriso
enigmático e disse:
- Você tem o seu
charme...
Provavelmente seu outro
hobby era me deixar embaraçado: estava
ficando especialista. Soldado vigiando o
inimigo tem seu charme.
O inimigo nos dava dias
muito frios. Talvez por isso, eu estava
ficando mais em casa. Dos três, eu era o
mais inconformado com tudo. Iria tudo voltar
ao normal? Uma cidade de presente? Não,
obrigado, não precisava... Uma cidade ou um
país? O universo de presente? E eu, onde me
encaixava? Quem eu era? Sabia que nunca fui
o que desejei ser. Sabia que nunca havia
feito uma escolha por mim mesmo. Como
qualquer pessoa, nunca me senti responsável
pelo que eu era. Estranho pensar naquilo
tudo; que eu era? Mas sempre pensei nesse
tipo de coisa. Já imaginei eu ter nascido no
Rio de Janeiro. Seria um Rindu completamente
diferente. Imaginei um Rindu filho de um
industrial. Rindu Strasburguer. Uma bobagem
pensar nisso tudo; garanto que a metade da
minha vida foi gasta pensando em bobagens. A
verdade é que eu não sabia qual personagem
eu deveria representar; não havia mais
nenhuma platéia. Um soldado charmoso. Um
jaguatirica implacável.
Acho que o inverno me
fazia pensar nessas coisas idiotas. Acho que
se ele durasse mais tempo, eu acabaria me
transformando em uma estátua; na estátua de
um pensador."
PRIMAVERA
"(...)
Fazer o que em São Paulo?
Fazer o que em Nova Iorque?
Fazer o que com o tempo? Fazer o que com o
nascimento diário do sol? Fazer o que com as
granadas se estilhaçando em fragmentos?
Fazer o que, caso ela tenha o filho? Fazer o
que, se acabar a luz? Fazer o que, se formos
atacados por jaguatiricas? Fazer o que, se
tudo voltar ao normal? Fazer o que com a
comida estragando? Fazer o que com tudo o
que aprendi? Fazer o que com as palavras?
Fazer o que com a minha obra, com a minha
imagem? Fazer o que com a humanidade? Fazer
o que com a cidade presenteada? Fazer o que
com a indiferença do que é verdade e
mentira? Fazer o que para alguma coisa ter
sentido?
Por que luto para conservar a minha vida?
Por que desapareceram os valores morais?
Por que tomar duas pílulas para dormir?
Por que não me transformo num ponto entre o
Céu e a Terra?
Por que tudo isso aconteceu?
Por que a velha não entrou em contato?
Por que o puma não me atacou?
Por que Stellinha dormiu com o pai da melhor
amiga?
Por que Martina abriu o seu corpo para mim?
Por que fomos os escolhidos?
Por que eu sou sempre tão infantil?
Por que temer a morte Por que temer a vida?"
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