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Aeroporto. Kennedy ou La Guardia?
Do primeiro saem mais vôos internacionais. O
segundo é mais caótico. Entrei num táxi e
pedi o La Guardia.
Quer mesmo saber?
Foi a primeira vez que atirei em alguém e,
naquela circunstância, faria de novo. O tiro
foi para me dar tempo. A cena deixaria o
motorista em pânico. A primeira coisa que
faria seria correr para um hospital.
Agora eu digo: antes ele do que eu.
SE o escocês morresse, melhor para mim que
ganharia, então, uma nova identidade e
poderia usufruir dela por um bom tempo. Se
vivesse, sorte dele. Mas até conseguir dizer
quem era, eu já estaria longe, depois de ter
usado seu nome: Paul Surrender - solteiro,
27 anos, visto de permanência para um mês.
A maioria dos vôos que chegam num país fica
em terra algumas horas, o suficiente para
reabastecer, trocar a tripulação, etc. Sua
passagem era de ida e volta. O avião que
trouxera Paul Surrender seria o mesmo que me
levaria embora. Londres. Fim de linha. Não
teria problemas em viver por lá, até me
organizar melhor e partir pra outra. Em
dinheiro consegui mais de mil libras e quase
dois mil dólares, incluindo os do motorista
de táxi. O bloco de travellers foi
picotado e jogado pela janela. Li com
atenção os dados do passaporte procurando
memorizá-los. Eu estava pronto."

"(...)
O Brasil mudou. Queriam revistar o filho de
um ministro pelo prazer de revistar um filho
de um ministro. O Montblanc voltou e,
sabendo da revista, esboçou um pequeno
escândalo, até eu interrompê-lo e me colocar
à disposição.
Me levaram para um reservado onde fiquei a
espera da minha mala. Os policiais que
entravam me examinavam de cima a baixo, e
davam uma olhadela nos meus papéis e na
ficha que o computador do aeroporto
imprimira, onde provavelmente estava o
histórico da minha prisão e deportação de
Paris. Alguns me cumprimentavam emocionados,
como se eu fosse um personagem histórico.
Mas a maioria era hostil.
Minha mala chegou junto com outros
policiais. A maioria não queria perder o
grande momento, assistir à humilhação de
alguém tão poderoso, enquanto a minoria
protestava. Tirei a roupa sem titubear.
Alguns ficaram constrangidos, ma sa maioria
queria show. Revistaram os bolsos e a mala.
Notas de dólares, pounds, moedas e a
chave de Mona. Na minha mala, poucas roupas,
revistas e um exemplar do Daily News.
Colocaram meus pertences sobre a mesa. O
jornal ficou aberto em destaque. Ninguém
notou a manchete do dia, em inglês:
BRASILEIRA ESQUARTEJADA EM MANHATTAN
Abri os braços, pus as mãos na cabeça e, nu,
no meio da sala, esperei a ordem de me
abaixar. Já havia passado por aquilo; quando
cheguei deportado de Paris, tive de me
despir e me abaixar para que examinassem meu
cu; tive de passar a mão no cabelo e abrir a
boca sob o facho de uma lanterna; minhas
orelhas foram examinadas através de uma
lupa; procuravam drogas, o que era ridículo
em se tratando de alguém recém-saído de uma
prisão francesa; procuravam, sim, intimidar,
mostrar autoridade.
Enquanto o Montblanc e alguns policiais
protestavam, outros me olhavam com deboche;
no choque entre poderes, venceu o mais
forte. A ordem de abaixar não veio. Vingou o
constrangimento: 'Não se faz isso com o
filho do homem'. Mandaram eu me vestir. O
Montblanc foi catando minhas coisas e dando
broncas em todos.
Finalmente me vesti e, não me pergunte por
que, agradeci:
- Obrigado a todos..."

"(...)
Voltei para a mesa e, na frente da
empregada, animal indefeso, como eu,
desabei; dois animais soltos no mundo. Ela
me encarou. Quem é você?
Uma empregada que se relaciona comigo
através de obrigações contratuais que
estabelecem limites para o seu comportamento
e exigem deveres em troca de uns trocados.
Quem é você, que também chora ao meu lado o
seu abandono? Acabamos nos abraçando.
Estávamos bêbados e enganados. Os corpos não
obedeciam nenhum comando. Automaticamente,
começamos a nos mover no ritmo de uma música
imaginária. Seu vestido era de seda, muito
liso. Nos agarramos mais. Tonta, encostou a
cabeça no meu ombro. Consegui escutar sua
respiração. Animais soltos. Nossas pernas
grudadas. Nossos ventres, um só.
Quer detalhes?
Está bem.
Paramos de dançar e nos olhamos. A expressão
era uma só: se é para fazer, vamos fazer!
De mãos dadas, subimos a escada e fomos para
o quarto dos pais, para a mesma cama em que
a flagrei. Tirou a roupa sem nenhum
constrangimento, como se estivesse num
ritual inevitável, condenada àquilo;
sobreviver e esquecer, nossa alienação.
Deitou, levantou os braços, abriu as mãos e
agarrou, com força, as barras de ferro, o
sacrifício. Livre, vulnerável. Tirei a roupa
com a mesma calma. Deitei sobre ela. Me
encaixei por entre suas pernas...
Trepamos.
Sem que eu tirasse os olhos de suas mãos
agarradas às grades, que se contraíam toda
vez que eu me empurrava sobre ela, quase que
esmagando as barras, mas que não se soltavam
apesar de estarem livres e desamarradas".
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