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O Predador
Entra na Sala
(Get a life!)
Texto de
Marcelo Rubens Paiva
Registro na
SBAT: 34.623
(03 de março de 1999) |
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Dirceu é um
escritor que, tendo publicado romances de
grande sucesso no passado, já não consegue
produzir um livro há algum tempo. Ele vive
sozinho em seu muito limpo e organizado
apartamento, não dá entrevistas e passa boa
parte do tempo ao computador, em salas de
chats de sexo virtual. Com tantas horas na
internet, a única linha telefônica vive
ocupada. Quando não se encontra em suas
intermináveis sessões de conversação, o
alheio Dirceu deixa a secretária eletrônica
filtrar as chamadas. Rabugento, azedo e
sarcástico, é também cheio de manias e
obsessões, como a de curiosamente só
conseguir andar na rua se for vestindo algum
disfarce.
O mundo metódico e perfeitamente ordenado de
Dirceu, no entanto, sofre uma reviravolta
quando ele é informado, por seu editor, que
a filha Cacau virá da Inglaterra para
visitá-lo. Cacau é resultado de um caso
fortuito que Dirceu teve com Tânia, uma de
suas muitas conquistas. Mãe e filha moram em
Londres, uma distância quase que insuperável
para a indiferença de Dirceu. Ele nunca
deixou de mandar dinheiro para as duas, mas
só viu a filha uma vez, anos atrás, quando
Cacau era apenas uma garotinha. Dirceu não
demonstra qualquer inclinação à paternidade,
nem sequer interesse. E a adolescente que
ele encontra no aeroporto é mais complicação
do que imagina.
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(DIRCEU ABRE A PORTA CONTRARIADO.)
DIRCEU
Logo agora! Eu estava ocupadíssimo.
EDITOR
Escrevendo?
DIRCEU
É.
EDITOR
Que bom. Posso ver?
DIRCEU
Não.
EDITOR
O que acontece que seu telefone vive ocupado?!
DIRCEU
Internet.
EDITOR
Quantas horas por dia você fica na Internet?
DIRCEU
Várias.
EDITOR
Fazendo o quê?
DIRCEU
Conversando, batendo papo, conhecendo gente...
EDITOR
Naqueles chats? Isso é coisa de adolescente.
DIRCEU
Isso mesmo. Vamos envelhecendo e regredindo. Meu avô,
quando tinha 80 anos, começou a ouvir rock pesado e ler
gibis. Mascava chicletes, o que descolava sua dentadura.
EDITOR
Era esclerose.
(...) |
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(...)
EDITOR
Ela já embarcou. Chega amanhã de manhã.
DIRCEU
É um complô? Eu mal a conheço!
EDITOR
É sua filha, Dirceu.
DIRCEU
E daí? O que ela vem fazer aqui?!
EDITOR
Conhecer o pai.
DIRCEU
Ela já me conhece. Nos vimos uma vez, quanto
ela era pequena.
EDITOR
Ela tinha quatro anos. E vocês só se viram
uma vez.
DIRCEU
Não sei o que é ser pai, não tenho idéia do
que fazer, vou ter de dar mesada, levar pra
passear, dar conselhos de pai, o que faço?
Dou broncas se ela comer doces?
EDITOR
Não precisa.
DIRCEU
Vou ter de mandar ela escovar os dentes e
depois tomar banho?
EDITOR
Só se ela começar a feder.
DIRCEU
Pode ser uma criança com problemas, ficar
doente, sarampo, caxumba, pode ter febre, e
não tenho termômetros em casa, você tem de
me livrar dessa.
EDITOR
Tarde demais. Ela já está a caminho.
DIRCEU
Estou tão ocupado. Sabe o trabalho que dá
configurar o browser novo. E
descomprimir os arquivos, tenho de
reformatar o hard disk, talvez esteja
cheio de vírus, vou ficar horas, dias
ocupado com isso... Vírus de computador é
perigoso para uma criança. E tenho muitos
botões para apertar, agora.
EDITOR
Ela é uma adolescente.
DIRCEU
Meu Deus, uma adolescente. Deve ser
maconheira. Uma punk. Vai estragar meu piso
com chicletes usados.
(...) |
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(...)
DIRCEU
Como está sua mãe?
CACAU
Está OK.
DIRCEU
Trabalha na BBC ainda?
CACAU
Trabalha. Você lembra o nome dela?
DIRCEU
Claro... O que é isso no seu nariz?
CACAU
Piercing.
Tenho um na língua, um no umbigo. Quase
coloquei um no clitóris, mas meu namorado
não deixou.
DIRCEU
E quando você bebe água, sai pelos buracos?
CACAU
Rá, rá, rá, it’s not funny...
É verdade que Deus é brasileiro?
DIRCEU
É. E Jesus Cristo, com aquela cabeleira,
deve ser argentino.
(...) |
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(...)
DIRCEU
Não sinto mais prazer em escrever.
CACAU
Tadinho... Por isso parou de publicar?
DIRCEU
O mercado está mais exigente, sofisticado. Hoje em dia,
socialites, colunistas, palhaços, até cantores populares
publicam livros. Escritores, não. Escritores são
cansativos, com seus estilos pessoais, suas doenças
incuráveis.
CACAU
Você está com câncer?!
DIRCEU
Era uma metáfora.
CACAU
Ah... O que é uma metáfora?
DIRCEU
É uma doença.
CACAU
Nunca peguei uma metáfora. Já tive sarampo. Metáfora tem
cura?
DIRCEU
Tem.
CACAU
Então você não tem com que se preocupar. Cuida dela e
escreve um livro.
DIRCEU
Estou sem idéias, sem paciência, sem vontade...
(...) |
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(...)
DIRCEU
É minha filha. Minha filha tem autoridade
para falar. Fale. O que você acha dos meus
livros?
CACAU
Bem... O primeiro, é genial. Nem preciso
dizer. Foi o que te deu prêmios e fama. Você
é irônico...
DIRCEU
O narrador...
CACAU
... é, o narrador é irônico, divertido,
sincero. Tem aquela cena memorável da menina
que perde a virgindade com o namorado.
Depois, o segundo livro, é muito louco,
parece uma viagem de ácido, doidera pura, os
três vagando pela cidade, fazendo mil
loucuras... É demais. O outro eu gostei
menos. O quarto, aquele que se passa em
Brasília, é o melhor. Você... quer dizer, o
narrador é tão filho da puta, mas a gente
torce por ele no final, e quando ele entrega
o pai pra polícia, é lindo, lindo... Tem o
das “59 Putas”, é o mais maduro. É o mais
profundo. Quase como seu testamento. Parece
que tem muito de sua família nele, quer
dizer, da nossa família.
DIRCEU
É, tem sim, mas é ficção.
(...) |
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